Tipos Inesquecíveis
Segundo testemunhas mais ou menos confiáveis, o incêndio que
consumiu a casa e a loja de vovô ocorreu assim:a loja de vovô,
ao lado da moradia, tinha sua quota de "paus-d'água" que se concentrava
ali à boca da noite e, de quando em quando, durante o dia.Bate-papo
ordinário era a agenda invariável dessas reuniões
a que os desocupados do lugar vinham, sempre, estimular com as suas presenças.
Era o que, em gíria, se costuma dizer, conversa de encher
colchão. Palavrório baixo, entremeado de palpites chulos
e gargalhadas roucas eram a regra. Quando se esgotavam as vítimas
da maledicência, eles trocavam xingações entre si.
As estórias eram repetidas, variando apenas as personagens, e não
tinham nenhuma originalidade. Só acidentalmente - e com desgosto
- havia comentários sobre acontecimentos reais. As anedotas espúrias
eram a matéria preferida. E quando alguma delas não provocava
risos no grupo, o próprio relator irrompia numa ruidosa gargalhada
que, de certo modo, encobria o desapontamento.
O Sr. Asa Webster, velho caixeiro de vovô, era um tipo excêntrico.
Sob nenhuma condição riria dos seus próprios ditos.
Era tão empertigado que chegava a curvar-se para trás. Quando
contava suas mentiras, compunha a cara de mau: lábios apertados
e olhar lúgubre, que se agravavam se se suspeitasse que algum dos
ouvintes estava duvidando da sua veracidade.
Asa Webster era considerado o campeão dos mentirosos de Wallingford.
Tenho a impressão que ele se orgulhava desse título. Diziam-no
professor e improvisador de mentiras e que tinha mais discípulos
do que Platão e Sócrates tiveram, quando ensinavam os seus
sistemas filosóficos. Wallingford fora, pois, a Atenas dos mentirosos.
·
Para o ministério das aulas e prática da arte era escolhida
a loja de vovô onde o mestre Asa imperava. Como as grandes artistas,
este era temperamental e não tolerava rivalidades. Sempre que a
sua supremacia estivesse ameaçada, ele mentia com redobrada criatividade,
até eliminar o concorrente. Num certo dia ele exagerou tanto que
a loja e a casa se incendiaram.
Quando lhe perguntaram como havia escapado do incêndio, diziam, ele
respondeu que, calmamente, vestiu o fraque, colocou a sua cartola-chaminé,
deu alguns passos para trás, para fazer espaço e tomar velocidade
e, então, jogou-se, através das chamas, pela vidraça
da janela. Um incrédulo perguntou:
- De que tamanho era o vidro, Webster?
- Sete por nove polegadas! Respondeu prontamente. Vovô não
reconstruiu a loja mas Asa Webster abriu, do lado oposto da rua, uma própria
e a seu gosto. Era o protótipo das atuais lojas "cinco e dez centavos".
A diferença estava na qualidade da clientela. A sua era só
de meninos, cuja capacidade máxima de dispêndio era de um
centavo...
Ao estabelecer-se, Webster não se acovardou com a terrível
concorrência que teria de enfrentar. Ao lado do bazar e da loja de
ferragens havia um sem número de lojinhas especializadas, como a
sua: Luther Tower negociava com doces, confeitos e mel; George Tower vendia
limões, biscoitos e arenque seco; George Edgerton especializou-se
em refrigerantes, licores e nozes; Obadiah Makepeace preferiu trabalhar
com uma linha especial de utilidades domésticas.
De maneira geral, os negociantes eram gente muito boa. Obadiah, como vendedor
era, realmente, excepcional. Mesmo que no seu estoque não houvesse
a mercadoria desejada, ele induzia o freguês a comprar outra qualquer,
semelhante ou não. Contam que certo dia apareceu-lhe um freguês
desejando comprar querosene e Obadiah, a força de insistir, conseguiu
vender-lhe, em substituição, melaço de New Orleans.
Obadiah costumava curvar-se sacudindo as mãos diante do freguês.
Pretendia que esses salamaleques tivessem efeitos hipnóticos e levassem
o freguês a comprar o que ele lhe oferecesse. Homem, mulher ou criança
que entrasse no seu botequim com uma moeda era instado a gastá-la,
comprando-lhe o que quer que fosse.
Esse homem tão ambicioso foi, lamentavelmente, acometido
de uma moléstia semelhante à epilepsia e entrou em rápida
e profunda decadência física. Para nós, meninos, a
transformação de Obadiah era incompreensível.
Lembro-me de haver-lhe assistido perseguir uma mulher respeitável
num dia de intenso calor. A mulher gorda e pesada, corria muito mais do
que aparentava ser capaz, sacudindo as banhas e gritando de medo. A mim
e aos meus companheiros o espetáculo, ao invés de causar
surpresa, era profundamente engraçado. Embora Angelina levasse pequena
vantagem, alguns malvados dentre nós, gritavam, torcendo:
- Vamos Obadiah! Pega ela! E outros ao contrário:
- Corra, gorducha! Sacuda essas banhas por amor a Mike!
Como naquela época ainda não haviam inventado a caixa registradora,
não tenho base para avaliar a média diária do movimento
comercial daquelas lojinhas em Wallingford. Nos das de muita venda, talvez
o movimento chegasse a um dólar... dois, no máximo.
Para ilustrar a liberalidade ocasional dos jovens de Wallingford, posso
citar o episódio, a que assisti, de um jovem fazendeiro de Sugar
Hill na loja de George Tower, o fornecedor de biscoitos, limões
e peixe seco. O moço, num assomo de arrogância, gabou-se:
- Hoje, dia da independência dos Estados Unidos, posso comemorar
sem importar-me com o que isso me custe! Passe-me mais um desses peixinhos!
E George, em aparente aprovação àquela liberalidade
nascida de sentimento patriótico, recolheu mais uma moeda de um
centavo à caixa de biscoitos que fazia o papel de gaveta do caixa
da loja.
Avaliadas em termos de dinheiro as pequenas lojas de Wallingford nada tinham
de valiosas mas como força social eram de valor inestimável.
Elas ocupavam os seus proprietários. Atender as lojas era muito
mais saudável do que ficar em casa irritando a família e,
pessoalmente, se aborrecendo. Tinham, também, a serventia de reunir
outros velhos desocupados que, assim, se distraiam e matavam o tempo. O
trabalho de atender essas lojas, é fácil de imaginar, não
era nenhum sacrifício.
George Edgerton, por exemplo, permanecia quase o dia inteiro sentado e
se acontecia o inesperado de aparecer algum freguês, George o fazia
esperar até haver-se recuperado da surpresa e do desgosto de ter
de recebê-lo e servi-lo.
O tempo nada significava para tais comerciantes. Suas lojas eram ligadas
às residências e eles podiam ser chamados a qualquer hora
do da ou da noite. Nenhum deles, que aspirasse criar um centro social,
teria de planeja-lo e esperar por isso. Era só dispor algumas cadeiras
em torno de um foguinho baixo, com uma razoável escarradeira próxima,
e teria, de pronto, um grupo de bons mascadores de fumo hábeis no
cuspir à distância, orgulhosos dessa habilidade.
Como as lojas eram diversas havia liberdade de escolha para os fregueses.
Lee Simonds, por exemplo era leal freqüentador da loja de Edgerton,
uma drogaria singular porque não tinha drogas; Alonzo Canfield não
desgrudava da de Sabin, que negociava com latas e ferragens.
Alonzo era homem de pouquíssimas palavras. Na verdade, não
me lembro de havê-lo visto falar, a não ser quando alguém
o cumprimentava :
- Como vai você, Lon?
Ele respondia num resmungo:
- Amolado!
E fazia uma careta, seguida de tosse provocada. Sempre tive a impressão
que Lon desejava ardentemente por para fora as suas amarguras e não
podia fazê-lo. Era como se ele tivesse, dentro de si, uma enorme
carga de pólvora e lhe faltasse a espoleta para incendiá-la.
Se ele, ao menos aprendesse a mascar fumo e cuspir, a gente poderia vê-lo
completar as ameaças de manifestar se, como costumava. Então
ele cuspiria ao invés de pigarrear e jamais falar.
Meu avô freqüentava unicamente a loja de Webster. Ephrain Hewlett
era ligado à loja do seu filho, Danforth, de quem muito se orgulhava.
Roz Sherman, um refinado preguiçoso, sempre acompanhado de seus
cães famintos mas leais, apesar de estarem sofrendo freqüentes
ponta-pés, preferia locais onde houvessem barricas. Os meninos faziam
"via sacra" em quantos locais pudessem, colhendo informações
e a sabedoria circulante: a farmácia de Calvin Townsend, a confeitaria
de Luther Tower, o empório de George Tower, a loja de Ben Crapo,
a fábrica de caixilhos e portas que recendia a resina de pinus,
a mercearia de Harshie Ensign, os peixes secos de Obadiah e outras muitas.
Havia, ainda, a cavalariça de Charlie Claghorn, o moinho de William
Ballou, a fábrica de queijos de Martin Williams, a fábrica
de cangas, a fábrica de cidra, a marcenaria do perneta Sr. Pratt,
onde se fabricavam elegantes pijamas de madeira (também chamados
esquifes) que garantiam o conforto e a satisfação dos usuários,
a moradia de Johnnie Adair, a barbearia e sapataria do Sr. Jim Dolan, o
estúdio fotográfico do Sr. Eddy, que era quem extraia os
dentes dos meninos, o hotel Wallingford, gerido sucessivamente por Horácio
Earle e Lyle Vance, as ferrarias de Joe Randal e do velho Clark, a loja
ambulante de Jerome Hilliard e, por fim, a mais importante, a fábrica
de ancinhos de Batcheller.
A sede inicial da fábrica de ancinhos dizem ser a primeira dos Estados
Unidos, na sua especialidade. Por mais de um século foi conhecida
por "a casa velha de pedras". Sede de muitas indústrias, desde que
foi usada pelos Batchellers. Quando a conheci era a fábrica de cangas.
Mais tarde passou a ser "a sala de chá da Casa
Velha de Pedras", prestigiada e disputada pelos turistas que freqüentam
a rodovia Ethan Allen.