CAPÍTULO VI
Os Sinos de Wallingford
Nada perturbava a tranqüilidade dos nossos domingos a não ser
o clangor do sino, no alto do campanário da igreja, respondendo
aos puxões vigorosos da corda pendente, pelo sineiro, o Capitão
Johnson. Eu não sabia quem esse Capitão Johnson era, nem
quem eram seus pais e mesmo, porque lhe haviam atribuído a patente
de capitão. Tudo o que posso afirmar, com segurança, é
que sempre que o sino da igreja soava a gente podia divisar na sacristia,
o capitão balançando verticalmente uma corda ondulante, que
desaparecia num buraco do teto. O capitão subia e descia agarrado
na ponta da corda, de tal forma que se tinha a impressão de ser
a corda que movia, puxando o sineiro.
Todas as manhãs de domingo, lá estava o capitão naquela
luta gloriosa, no interior da sacristia. Quando parecia estar a corda prestes
a escapar das suas mãos, vencendo-o, ele, num esforço violento,
conseguia trazê-la de volta para baixo. E a luta do sobe-desce recomeçava.
As mãos do capitão, agarradas na corda ondulante, assemelhavam-se
ao excitante espetáculo do grupo Lauconte com suas serpentes. Para
nós, menino, assisti-lo era uma compensação à
chatice da permanência na Igreja.
Não pode haver nada mas impróprio para um sino de igreja
do que possuir um timbre de arrepio à teologia. Mas o nosso era
verdadeiramente característico de uma igreja Congressional. Disciplinado,
fazia-se ouvir, alegre e indefectivelmente, duas vezes nas manhãs
de domingo. Ao amanhecer, tangia convocando o povo a abandonar seus afazeres
mundanos e comparecer à igreja. Tinha um fervor evangelista. Os
seus sons suplicavam, aconselhavam, ralhavam, adulavam. Começava
em pianíssimo e seguia, num crescendo selvagem, ao fortíssimo
agitado de saltos mortais. As vezes, em verdadeira fúria, ameaçava
saltar fora do campanário.
Era difícil associar o sóbrio capitão Johnson
com aquele sino louco, em delírio. Note-se, no entanto, que o capitão
jamais se identificou pela piedade. Ninguém o viu, que eu saiba,
nas novenas de sextas-feiras, nem à mesa de comunhão, aos
domingos.
O segundo dobre era caracterizado por batidas cronologicamente espaçadas.
Não possuía as exuberâncias sonoras da manhã.
Era como que um ralho pesaroso, dolorido, em nada parecido com a vibração
álacre do dobre imperioso de chamamento à missa. Cada
badalada era uma solene proclamação do que devia ser esperado
pelas pessoas que não haviam comparecido à igreja, ou não
haverem sentido arrependimento pelos pecados cometidos.
No campanário da outra igreja, distante a duas quadras, precisamente
no mesmo instante que na nossa, outro sino entrava a conclamar, frenético,
a presença dos seus fiéis. Imitava as intenções
e a energia do sino da igreja Congressional mas ficava, por mais esforços
que fizesse, a muita distância das suas concepções
teológicas. Era o sino da Igreja Batista. Devia possuir o seu próprio
capitão Johnson. Eu, porém, não o conheci. Sempre
supus que fosse Seward Ainsworth, que era organista, dirigente do coro,
solista, superintendente da escola dominical, juiz de paz e outras coisas
mais.
Uma das mais irracionais crendices que o sino da Igreja Batista proclamava
era que a salvação da alma, pelo batismo, depende da submersão
completa do penitente nas águas do rio Otter, assistida pelo ministro:
Os membros da igreja e quem mais desejasse podiam assistir ao ato sentados
nas ribanceiras do rio, de ambos os lados. Nós, os meninos, é
óbvio, sempre o desejávamos. Era um espetáculo divertido:
o reverendo Henry Archibald, grandalhão, de barba ruiva, duro e
solene a conduzir os pecadores, tiritando de frio, pelas pedras escorregadias
das corredeiras até quase o meio do rio, afundá-los
e depois de instantes, retira-los da água tossindo e fungando...
mas lavados do pecado. Como diria o salmista: "mais brancos do que a neve".
Esse rito, supõe-se, está indicado na doutrina da
religião batista mas diga-se, a bem da verdade, que o sino da sua
igreja o assistia sempre, no mais respeitoso silêncio. Sem a menor
vibração. Isto nos faz pensar que, em assim agindo, ele sugere
aos homens o quanto é nobre o respeito às crenças
alheias. Embora apenas se suspeite que é essa intenção
do sino, merece louvor o seu mutismo exemplar. Pois não há
quem não saiba o que pode uma língua solta fazer de malefícios.
O sábio sino da Igreja Congressional sabia da existência de
um parafuso frouxo na cabeça ao da Igreja Batista, já que
todos os demais proclamavam vibrando altissonantemente as virtudes bastantes
da aspersão para a, purificação, no batismo. A disputa
aumentava furiosamente e, por vezes, acrimoniosamente. Desaforos, apelidos,
acusações, insinuações e xingamentos eram trocados
numa barafunda de doutrinas de Calvino, de Knoz, de Wesley, com algumas
tintas de Johnathan Edwards.
Havia uma igreja católica em Wallingford que não possuía
sino e, portanto, não participava nessas disputas. O melhor que
podia fazer era manter a cabeça abaixada e bater os dentes, se é
que os tinha.
Há que reconhecer que os sinos das igrejas de Wallingford exerceram
influência unificadora na comunidade. Teria sido melhor se as duas
contendoras houvessem se entendido ao invés de permanecerem barulhentas
e discordes. Possivelmente teriam compreendido que a tolerância é
que mostra os caminhos iluminados do Reino.
No entretanto, não é sempre que os sinos das igrejas estão
em disputa. Nos momentos de tristeza, quando alguém morre, os sinos
dobram anunciando o fato. Nessas oportunidades cada sino cumpre a sua própria
e oportuna destinação. Por consenso, se o morto não
pertencesse a nenhuma igreja não haveria, dobre de sino. Cada igreja
só anunciava o passamento de fiéis seus. Em certas ocasiões
o sino anunciava a idade do morto, batendo, após o dobre a finados,
uma badalada por ano de vida, bem espaçadamente.
A primeira badalada do sino, toda gente suspendia o que estava fazendo.
As donas de casa, que estivessem a lavar, retiravam as mãos do meio
da espuma, enxugavam-nas numa toalha ou no avental que estivessem usando,
benziam-se e diziam, num suspiro : "alguém morreu! " Em seguida
contavam as batidas. . . Como a idade de todos era mais ou menos conhecida,
não havia muita dificuldade para identificar o morto. Durante a
contagem, se as batidas ultrapassassem um certo número, lá
vinha um suspiro de alivio e... "Graças a Deus não é
a Millie!". Ainda posso ver com os olhos da memória, vovó
contando pacientemente as lúgubres batidas: oitenta e oito, oitenta
e nove, noventa e, virando-se para vovô : - "foi o Sr. Lovett, pai!
Partiu para o descanso eterno! Teve uma vida longa! Sofreu muito mas, afinal,
descansou!"
No cemitério não havia discriminação religiosa.
Os túmulos se alternavam sem nenhuma ordem.
Sem convicção teológica definida, eu costumava,
nas tardes de domingo, tomar meu lanche de leite e pão sentado na
soleira da parta da cozinha observando, em clandestina camaradagem com
o sino, notoriamente defeituoso, da igreja Batista, que ficava colocado
na minha linha de visão e cujas linhas me pareciam agradáveis.
Quando, à hora do ofício vespertino, ele entrava em contorções
desesperadas para tentar trazer para a igreja os crentes, as andorinhas,
que não apreciavam aquelas demonstrações, voavam espantadas
e desordenadamente até que o silêncio fosse restaurado e elas
pudessem voltar para os seus abrigos, sossegadas.
Havia outros sinos. Aliás, Wallingford era a cidade dos sinos, cujas
vibrações se levantavam de todos os lados. Havia os sinos
das lojas e das escolas. Durante o inverno, depois que o lençol
branco de neve cobria os morros, as estradas e os telhados, havia o tilintar
de guizos de um sem número de trenós. Os das lojas anunciavam
o horário de trabalho. Os das escolas conclamavam a juventude escolar
de todas as religiões. Ali, a criançada era tratada sem discriminação...
Todas eram iguais, como membros de uma grande família, que viviam
em solidária harmonia.
Quando havia incêndio à noite, os sinos de Wallingford brandiam
em uníssono. Sem necessidade de língua todos gritavam, desesperados:
"Acordem! Tragam água! Uma casa está queimando!"
Outra ocasião em que os sinos das igrejas, que não possuíam
guardiões, rompiam num bimbalhar infernal, era para anunciar a data
da Independência dos Estados Unidos, ou pelo ludíbrio de meninos
travessos que conseguiam chegar a eles. Dizia-se que os sisudos guardiões
das igrejas não estariam contra tais contravenções.
Pelo contrário, até as apoiavam. No entanto houve ocasião
em que os rapazes, atingido o campanário, amarravam uma corda no
badalo do sino, levando a outra extremidade para o matagal próximo,
de modo a poder brandir o sino de fora da igreja. O guardião, tencionando
surpreender os rapazes no alto da torre, subiu sorrateiramente pela escada,
naquela ocasião. Mas os rapazes o seguiram e trancafiaram-no na
torre obrigando-o a suportar o troante badalar do sino durante o resto
da noite.
Quando nós, os meninos, sentíamos fome, o mais melodioso
som era o do sino que, pela mão da mãe ou de uma empregada,
anunciava a mesa posta com comidas gostosas, quentinhas. Qual é
o menino saudável e ativo que não abandona o bete, a bola
ou, mesmo, uma peladinha, quando ouve a melodiosa chamada. para o jantar?
Não será necessário nem anunciar o cardápio,
pois ele será identificado logo à porta de entrada. Será
o cheirinho bom que vem da panela do “corned-beef”, do porco defumado,
do virado de couve, da salada de nabo e beterraba com cebola que dirá:
"a Nova Inglaterra preparou o jantar para você, rapaz! Puxe a cadeira,
sente-se e. . . mãos à obra! Não se preocupe com o
lavar as mãos ou o rosto, você já os lavou ontem! Que
importância tem se você sujar o assoalho da cozinha ou da sala
de jantar, respingando gordura ou migalhas! Isso até é bom!
O que significa mais algumas esfregadelas, para quem já vai limpar
a casa toda? Vamos! pendure o chapéu atrás da porta e venha!
Estamos aqui para agradá-lo! "
E, além daquele irresistível convite, o pudim de milho, mostrando-se
por baixo da toalhinha, gritando: "Não se esqueça de mim,
rapaz! Já chego aí no seu prato!"... Qual o piá que
resiste a esses chamamentos ao seu nervo olfativo, já excitado pela
fome? Se alguém quiser apanhar um passarinho, ponha-lhe sal no rabo,
se quiser apanhar um garoto, ponha-lhe cheiro de comida no nariz. . .
Havia, também, os sinos das locomotivas para anunciar a chegada
ou partida do trem ao povo, reunido na plataforma da estação
para embarcar, esperar passageiros e despachar pacotes e cargas. Rutland
era o destino do maior número de passageiros e ficava a longos 15,5
quilômetros adiante.
A gente estremecia só de pensar em quanta gente teria sido atropelada
pelo estouvado trem, se não houvesse o aviso do sino da locomotiva
bimbalhando alacremente, acionado pelo orgulhoso foguista sentado ao lado
de sua majestade, o maquinista. A gente imaginava que o trono dos Césares
não teria o esplendor da cabine da locomotiva, apelidada pelo povo
de GREEN MOUNTAIN BOY. Sua Majestade, o maquinista ostentava, com o orgulho
merecido, a posição nobre que ocupava. De quando em quando
se dignava baixar os olhos para algum dos meninos fascinados, que sonhavam
com um futuro glorioso de, algum dia, poder ocupar aquela posição
sobrenatural.
No verão as vacas-madrinhas (2) eram adornadas com um colar de couro
portando o cincerro, para conservar o rebanho reunido nas pastagens montanhesas
e muitas vezes até as ovelhas portavam guizos. Os mais festivos
dos sinos em Wallingford eram, sem dúvida, os dos trenós.
Que beleza, o seu tilintar! Especialmente aqueles de logo após as
primeiras neves do fim do outono. Suaves flocos, caindo silenciosamente
na noite, forrando a terra com um imenso lençol branco. Que surpresa
para os jovens. Saídos dos seus cálidos leitos de penas e
envoltos nas suas roupas quentes, o deparar, pela manhã, através
da janela, o espetáculo maravilhoso dos campos nevados. Os sitiantes
que possuíssem um cavalo teriam, também, um trenó.
O alegre clamor dos seus sininhos era o anúncio primeiro de que
os esportes de inverno tinham começado. Haveria um sem número
de trenós circulando pelos arredores ondulados.
Haveria homens cobertos de neve com sua roupagem característica
e de cachimbos na boca, casas feitas de gelo e fortalezas para serem tomadas
em batalhas de bolas de neve. Haveria trenós deslizando ao
luar em clima de romance com casais jovens que, vestidos em roupas de couro
de búfalo, passavam, tracionados por corcéis negros tostados
ou baios, bimbalhando alacremente os seus colares de
guizos. Até os cavalos pareciam sentir o encantamento do espetáculo
cristalizado na brancura da neve.
Sem dúvida, eram os guizos líricos, suaves, alegres
e cariciosos dos trenós, os sinos mais maravilhosos. Ah! Se eu pudesse,
uma vez mais, vibrar, como na minha meninice, sentindo a estática
volúpia da vida nas manhãs do fim do outono!
"Ouvir os sinos dos trenós, argênteos sinos!
Quanto de encantamento na sua melodia,
Quanta alegria nos seus hinos
O ar gelado, ao fim do dia!
Cintilam, no céu, estrelas,
Ao longe, no paraíso.
Como pedindo que ao vê-las
Bimbalhem, alegres, as guizos.
Cincerros, guizos e sinos
Quais passarinhos em trino!
Sons de promessa, divinos!
Alegria dos meninos!"
Hear the sledges with the bells, Silver Bells.
what a world or meriment their melody foretells!
How they tinkle, tinkle, tinkle
In the icy air of night!
While the stars that over sprinkle all the Heavens
Seem to twinkle with crystaline delight
Keeping time, time, time in a sort of Runic rhyme,
To the tintinabulation that so musically wells
From the bells, bells, bells,
Bells, bells, bells
From the jingling and the tinkling of the
Bells, bells, bells.
(Edgad Allen Poe)
(2) Vaca-madrinha: é a que é seguida, sempre, pelas outras
do rebanho. (N. do T ). ·