CAPÍTULO XIII

Aí Vem a Primavera

             A  cada  passo ouve-se, como se fora um  refrão, "os invernos de hoje não são mais como os de quando eu era menino" Essas palavras, expressam o meu pensamento e os meus sentimentos mas as estatísticas dizem que a diferença  mais imaginária do que real que os dias muito frios e as tremendas tempestades de neve gravam-se mais nitidamente ns  nossa memória. Eu sei, no entanto que quando  os sinos  do campanário começavam a tocar a entrada do inverno, passaram a repetir-se espaçadamente, até que os primeiros sinais da Primavera anunciavam o fim do inverno. Nós suportávamos e, até de quando em quando nos alegrávamos quando o  termômetro central no correio indicava temperatura abaixo de zero. O depósito de gelo nas  nossas lagoas e lagos era abundante. Em Montreal, Burlingtone Vermon os carros deslizavam sobre pranchas de trenós ao invés de  rodas.
            Quando o vento gelado das regiões polares, soprava era divertido, observar os rostos dos rapazes e dos homens do meio rural. Os homens com os bigodes e costeletas brancos de gelo, esfregando as orelhas, girando os braços e sapateando para restabelecer a circulação das extremidades.
             As lareiras esbraseadas das escolas e das casas públicas consumiam muito carvão e, roletes de lenha, mas eram muito freqüentadas por pequenos e grandes. Eram rodeadas por gente friorenta mas saudável se aquecendo, lastimando o rigor do frio e imaginando a sua duração, enquanto nós, os meninos rezávamos para que nunca se acabasse.
            Durante as estações muito severas o acumulo de gelo nas vidraças assumia aspectos fantásticos e impedia totalmente a visão. Longos e volumosos bastões de gelo eram o resultado dos sucessivos congelamentos e degelos da umidade acumulada nos beirais. De quando em quando, caiam quebrando com ruído, face  as  mudanças de temperatura. Coitados daqueles que por acaso, fossem atingidos na cabeça por um tarugo de gelo. Quando a sol morno da primavera começava a derreter a neve das montanhas, os riachos e rios inchavam e muitas vezes, derramavam-se pelas várzeas e durante a primeira, noite fria, todos os lugares da cidade, onde houvesse alguma depressão capaz de reter água, transformavam-se em pistas de patinação. Nos achávamos lagoas geladas nos quintais, nos terrenos baldios, a margem dos caminhos, por toda parte, enfim. Pode parecer estranho como os “medonhos” podiam encontrar prazer em buracos de lama ou nos banhados formados pelo extravasamento d'água dos riachos. Explica-se. É necessária alguma imaginação. Aos "medonhos" do meu vale, os riachos pareciam rios, grandes rios tais como o Niagara, o Amazonas, o Mississipi ou coisa parecida. Os buracos de lama eram lagos de enormes proporções e tanto os rios como os lagos nos ofereciam oportunidades de testar as nossas botas de borracha.
            O ruído ensurdecedor do "Roaring Brook" era a anunciação de que a primavera chegara. Vovô gostava de nos contar a história de uma formidável enchente, em anos passados, do "Roaring Brook", que represara o "Otter Creek" inundando todo o vale, sem nenhuma preocupação de que algum Noé americano pensasse em alguma proposta de explorar uma possível arca. Tal proposta falharia, como  costume, quando uma das partes não coopera.
            Nós nos alegrávamos com a chegada da primavera, quando surgiam a luxuriante grama verde, as perfumadas lilazes, as macieiras floridas, os medronheiros crescentes, as bocas de leão e verdadeiros lagos de prímulas com as suas folhas verdes espalmadas As bocas de leão e as prímulas devidamente preparadas vinham variar o nosso cardápio, e embora nada soubéssemos aquele tempo, supríamos as nossas deficiências em vitaminas ocasionadas pela imprópria alimentação nos seis meses de frio e neve.
            Mesmo antes que as bocas de leão e as prímulas rompessem a superfície fria da terra, os agriões reverdeciam ao longo dos riachos As cenouras plantadas nas encostas e aprisionadas no seu tumulo gelado, durante o inverno, eram uma contribuição valiosa do solo frio. Com a nutrição prolongada ficavam ainda mais doces na hibernação Os rabanetes forrageiros plantados por vovô num canto afastado da horta já estavam prontos para a colheita antes, até, que desaparecesse o gelo da terra.
            As econômicas donas de casa de Nova Inglaterra faziam, elas  próprias, o sabão para lavagem da roupa, da louça, do assoalho e outras limpezas. A fabricação doméstica do sabão seguia um rito  que nós, os meninos, acompanhávamos. Ocupava espaço na economia da casa. Economizava gastos e custava apenas trabalho e boa vontade. Não  pois, de admirar que louça e panelas da Nova Inglaterra estivessem sempre limpas e que o assoalho brilhasse.
            Quando os dias se tornavam claros e mornos começava a fabricação de sabão. Vovô colocava uma barrica numa grande pedra chata que, por gerações, vinha sendo o centro de produção de sabão, enchia-a, de cinzas e derramava, sobre as cinzas, muita água que se escoava, através delas, para um dreno cortado na pedra e se depositava numa grande vasilha de ferro colocada no chão, em nível mais baixo. Quando a água toda houvesse se escoado seria devolvida ao barril de cinza para repetir o percurso feito. A cada vez que essa operação era repetida o liquido (lixívia) ia adquirindo coloração vermelha mais intensa e se tornando mais denso. Quando a densidade era suficiente para fazer um ovo flutuar, o líquido estava pronto para receber a gordura que, durante o inverno fora guardada. A vigorosa agitação que era, então, operada, na gordura, mergulhada na lixívia aquecida, resultava em excelente e macio sabão. De cor marrom escura e mole na textura, odor forte mas não desagradável, podia ser conservado na própria vasilha de fabricação donde se retirava, aos punhados, a medida das necessidades.
            Um dos meus grandes prazeres na primavera eram as longas caminhadas que fazia em companhia de George Sabim, depois de jantar. Quando as estradas estavam cheias de lama,  apenas o leito da ferrovia permitia o passeio.
George, que aprendera a fumar, tirava vigorosas baforadas do seu cachimbo quando me relatava as  extraordinárias invenções de que tomara conhecimento pela leitura da "Mecânica Popular" ou de outras publicações. Era um rapaz avantajado, dono de uma cabeça enorme, e densa cabeleira.
            Era dado a reminiscências e as enfeitava, apresentando-as com uma riqueza de detalhes que lhes dava características de verdadeiras. Por exemplo, relatando uma queda que sofreu do teto da fábrica de botes, ele explicava que foi devido a haver sua mão escorregado no parafuso grande da armação do telhado, em que ele estava agarrado, enquanto tentava trepar na cornija de uma escada estacionária. Nada poderia ter sido mais lógico. Seus dedos escorregaram no parafuso e ele caiu. Felizmente ele pode encolher as pernas e cair de cócoras, sobre uma viga que, providencialmente, estava estendida no chão. Foi como se caísse de um para-quedas. Quando perguntei se não havia perdido o fôlego, ele, displicentemente, respondeu que, provavelmente, nem respirara. Quando estranhei que a sua tática era exatamente a oposta a dos gatos em tais circunstâncias, ele emendou. Exatamente. Esses gatos burros, um dia, quebrarão, as pernas por querer cair sempre em pé.
              O movimento intenso na loja de latas, durante o inverno, era o resultado de pedidos acumulados de baldinhos para seiva, usados na extração do açúcar de “maple” no advento da primavera. George produzia uma bela quantidade de baldinhos para seiva, durante o inverno. Sua  produção já que não tinha nenhum maquinário e fazia todas  as operações manualmente era de setecentos ou oitocentos. Não obstante mantinha em bom  nível o seu trabalho na escola. A oficina de latoeiro exigia muito serviço, e não havia tempo para limpeza. O chão estava forrado de detritos de toda espécie, principalmente  pedaços  de  lata. George costumava dizer que seu pai programava uma limpeza da oficina para cada dez anos mas que, como estava ocupado sempre, esse dia não chegava nunca.
             Durante o verão, a escola fazia piqueniques aos domingos em matos distantes. Muito raramente planejavam-se excursões a pontos mais distantes, por trem.
            Tais acontecimentos eram memoráveis. Uma vez visitamos as cerâmicas em Bennington e noutra,  gloria das glorias,  fomos ao lago Bomoseen, perto de Hydvill, a 25 milhas, onde um  pequeno iate a vapor tinha sido preso por haver ousado temerariamente, avançar águas adentro, durante a enchente, a fim de que pudessem, os seus navegadores, dar, em primeira mão, informações de que era sacrificiosa a vida marítima dos missionários das Ilhas dos Mares do Sul e em outras partes distantes.
            As cestas dos  piqueniques arrumadas pelas donas de casa eram plenamente abastecidas com gostosos sanduíches, deliciosos bolos de chocolate e de nozes. Às vezes, até, recheados com creme!
             No inverno, o jantar da páscoa tomava o lugar dos festivais, piqueniques e excursões. Fazer dinheiro era necessário para  atender as atividades da igreja. Ocasionalmente as senhoras da congregação levantavam o que se costumava chamar "o jantar dos tempos difíceis". George Sabin, que pensava muito na sua própria alimentação, e podia jantar como qualquer outro,  dizia que os tempos eram difíceis mas o jantar não o era. Os jantares dos tempos difíceis eram os que produziam dinheiro para a igreja, já que eram as senhoras que, praticamente, contribuíam com tudo. Nós, os "medonhos", considerávamos os jantares, excursões, piqueniques muito mais objetivos e eficientes como influência cristianizante, do que as misses estrangeiras e outras baboseiras.
             As alterações de vida comunitária tomavam a nossa atenção.  Quando morreu o velho Clark, o ferreiro, um homem mais moço, oriundo de não sei aonde, chegou à cidade para substituí-lo. Chamava-se Peck. Seus músculos volumosos chamaram nossa admiração e prepararam os nossos espíritos para aceitarmos  sua liderança.
            O Sr. Peck tinha um galo com cicatrizes, veterano lutador que era, e o exibia com compreensível orgulho, provocando lutas com qualquer outro galo da vizinhança. Passou-me, então, pela cabeça que o nosso galo velho cantador, que eu chamava de  Matusalém, poderia, na sua idade avançada, tornar-se um lutador famoso transmitindo, assim, prestígio para vovô e para mim.
             A luta foi combinada. Um outro menino e  apanhamos Matusalém e o levamos aas vezezso Sr Peck. Não havendo aposta em dinheiro ficou combinado que a luta valeria pela glória do vencedor e seria a abertura do campeonato de Rutland, título que o galo do Sr Peck parecia deter.
            Quando vi os dois oponentes na rinha eu apostaria um milhão de dólares no representante do vovô, se eu tivesse esse dinheiro. Matusalém era algumas polegadas mais alto e  muito mais pesado. Sua plumagem, de cores variadas. Embora seus ancestrais fossem desconhecidos, ele tinha as características de um Plymouth Rock .Quando Matusalém se defrontou com o pernalta de Peck, emitiu um som gutural parecido com uma pequena gargalhada, como se dissesse: "É com isto que tenho que me haver!? Ora, nem tem graça!”
            Apos alguns minutos da luta o galo de Peck começou a abaixar-se sobre os ângulos das pernas e Matusalém deu-lhe o que parecia ser o golpe de misericórdia. O galo de Peck deitou-se e morreu, ou, pelo menos, pareceu morrer. Matusalém grasnou e bateu as azas. Eu gritei para Peck:
            "Seu pernalta está morto!" Mas Peck retrucou.  "Não será por muito tempo. Ele só está tirando uma soneca! Não viu ele piscar para mim? Isto significa que ele vai acordar dentro de um ou dois minutos e dar ao seu galo velho a maior surra que ele já levou na vida".
            O prognostico de Peck era mais correto que o meu. Três vezes o galo dele deitou-se aparentemente morto para o mundo. Parecia, de cada vez, que nada mais havia a fazer a não ser enterra-li. Matusalém pisava na ponta da asa, orgulhoso, grasnando vitória. Mas nas três vezes o defunto ressuscitou e voltou a luta. A sua terceira ressurreição foi surpreendente para Matusalém que ainda recobrou coragem e "matou" o adversário novamente. Mas este tornou a levantar-se corajosamente.
            A partir de então Matusalém começou a mostrar-se meio atordoado e a pender a barlavento. Parecia ter perdido o interesse pela luta e pensar em coisas mais agradáveis.
            Prá  falar a verdade, Matusalém foi uma "passada". Mostrou-se, em termos de lutador, que estava ali porque o puseram mas ele não queria nada com nada. A estratégia do galo de Peck foi a de cansar Matusalém que era maior e mais pesado. Por isso ele fingiu estar vencido tantas vezes. Matusalém, porém, era, um galo honesto e por nada usaria de atividades duvidosas para pavonar-se com honras de campeão!
            Eu nunca disse a vovô o quão próximo do campeonato esteve o seu galo. Em verdade, achei mais acertado nem mencionar a luta. Muitas semanas passaram até que Matusalém voltasse ao seu estado normal e assumisse a posição correta quando vovô levava a ração de milho.
            Peck não foi o único novo morador da nossa comunidade. Um, cujo nome não me lembro, entrou na minha classe, na escola. Sua característica mais saliente era a maestria em exclamações obscenas. A sua capacidade de dizer palavrões era realmente excepcional e, no segundo dia, lançou uma campanha para formação de uma equipe de beisebol. Sua fórmula era simples. Devíamos ter um bom batedor, um bom apanhador e um bom faz tudo abaixo da linha. Com isso teríamos uma boa equipe. Como não sabíamos nada a respeito e o nosso advena sabia tudo, deixamos as coisas por sua conta. Mas antes de passada uma semana ele sumiu da escola e da cidade, sem nenhuma explicação.