CAPÍTULO XIV

O Xarope de Bordo ("Maple") de Vermont

             Quando a primavera aquece suficientemente as árvores, a seiva começa a fluir e os ruralistas de Vermont, que têm a felicidade de possuir nas suas propriedades o bordo, começam a preparar-se para a extração do açúcar. A colheita do bordo, rica em açúcar, é um misto de trabalho e festival. John Bourroughs chamava a extração de açúcar de "brinquedo de trabalhar".
            Os principiantes nos ritos da cerimônia da fabricação do açúcar começam-nos com uma disposição de espírito peculiar. O fluxo da seiva do bordo é um dos primeiros arautos da primavera. É a proclamação da natureza de que o inverno, com os seus dias tão curtos e as noites frias tão longas, está se deixando vencer pelo rei sol. Quanto mais claro e morno é o brilho do sol, mais intensamente e rica flui a seiva do bordo. Assim, nos mornos dias da primavera, quando o frescor da noite se esvai, levado pelo levantar do sol a seiva corre pela diagonal dos talhos e vai, em gordas gotas, para os baldinhos, como se agradecesse, apressada, o aquecimento do rei sol.
            Embora os ruralistas de Vermont não usassem imprimir convites para que os meninos da cidade os ajudassem a colher a seiva e demais passos de obtenção do açúcar, compreende-se que essa atividade é um dos pretextos primeiros para os adultos afrouxarem a rigorosa, costumeira e necessária parcimônia e estabelecerem, com a criançada, a convivência amiga. As férias da primavera eram o período doce das nossas incursões às plantações de bordo. De botas de borracha, varávamos todas as depressões do vale ao longo dos caminhos e, vencendo quaisquer obstáculos, seguíamos pelas encostas das montanhas enquanto o  sol brilhava.
            Quando acontecia alguma extemporânea ocorrência de neve em março, que não fossem os restos conservados em ínvios desvãos, o povo usava chamá-la de "neve do açúcar". Era o equivalente a dizer que a Providência fez cair a neve a fim de melhorar a circulação da seiva nas fraldas da montanha, onde se podia colher seiva com menores dificuldades. A "neve do açúcar" deveria, seguindo a crença popular, ser a última do ano mas não era. Aconteciam nevadas leves até meados de abril.
            As ocorrências de "neve do açúcar" davam nova oportunidade aos "medonhos" para percorrerem os carreiros dos bichos do mato nas encostas e nos vales. Aqui se viam vestígios do cauteloso "galo do mato", ali os sinais deixados por uma lebre e, às vezes, até algum rasto de raposa ficava impresso na neve. As codornizes e gralhas e mesmo os ratos deixavam a impressão tênue das suas patinhas na neve ao andarem fora dos seus esconderijos. Havia também rastos de esquilos, os quais não nos interessavam muito porque se abrigavam no alto das árvores, chiando e trepando em espirais nos troncos e nos galhos dos velhos carvalhos, espantando os pica-paus de cabeças vermelhas que procuravam ali os seus alimentos.
            Empoleirados nas pedras que afloravam à superfície, dávamos pasto aos olhos com o panorama que se estendia abaixo e, então partíamos a procura da árvore mais concentrada de açúcar, freqüentemente sem resultados, esvaziando as cavidades do gelo sólido, formado durante a noite, a fim de conseguirmos o resíduo extra doce deixado no fundo. Éramos, na verdade, vândalos durante a época do "açúcar". Eram necessários quarenta baldinhos de seiva para obter um de xarope, se nada fosse derramado.
            Como compensação pelo doce que consumíamos e por outras perdas, os ruralistas recebiam de nós o auxílio na colheita dos baldinhos e o seu esvaziamento nos recipientes dos veículos baixos, tracionados por bois, para o transporte até a casa. Ou então, para os que usavam o processo primitivo, ajudávamos na fervura em caldeirões de ferro. Também, noutra fase de colaboração, participávamos ajudando a separar a massa das grandes panelas retangulares.
            Preparar o açúcar era ocupação para dia e noite. Durante o dia colhia-se a seiva e à noite, fazia-se a fervura ou evaporação, conforme o processo preferido. O tempo de fluxo da seiva é curto e se o fazendeiro for ambicioso terá que apressar-se ao máximo.
            A lenha necessária deve estar ao alcance da mão. Um homem vigoroso, hábil no manejo do machado, poderia facilmente derrubar árvores secas e cortá-las, tronco e galhos, em toretes de tamanho apropriado, para o fogo de preparação do açúcar. A rapidez e a segurança das golpes certos dos afiados machados, nas mãos daqueles homens, era fascinação para os olhares dos meninos da cidade. Não havia perda de golpes. A lâmina do machado caia certa, dentro da fração infinitesimal de uma polegada, de onde o machado caíra no golpe anterior. Sem total exatidão o esforço do corte seria extremamente maior. O exame do corte, na árvore derrubada, levaria facilmente à avaliação da habilidade, no machado, do homem que a derrubara. Além disso era bonito ver o bom machadeiro: a lâmina subia rápida e com elegância até o alto. No seu ápice, uma parada momentânea, e então, a descida violentíssima e certeira, em curva graciosa.
            Às vezes, vagueando no mato, pode-se ouvir a aproximação de um bater de asas e, logo a seguir, um vulto caindo do céu sobre uma árvore. A curva descrita pelo pássaro ao fim do vôo, antes de deixar-se cair sobre o galho onde está o ninho, é como o vôo da lâmina do machado nas mãos de um hábil machadeiro. E a poesia do movimento. Muitos ruralistas, durante o inverno, fazem os cabos dos seus machados a gosto, dando-lhes forma e peso bem balanceados. Trabalham neles com a delicadeza necessária para fabricar um arco de violino.
Os trenós são baixinhos para que o seu centro de gravidade se desloque o menos possível, descendo ou subindo declives violentíssimos. Como conduzir-se entre, sob ou sobre árvores e pedras, enfrentando situações de dificuldades de equilíbrio, somente a tarimba e a treinada percepção dos produtores de açúcar da Nova Inglaterra podem conseguir.
            Já vi trenós com pipas cheias de líquido açucarado, puxados por pesados e pacientes bois, descerem por estreitos caminhos na montanha, saltando sobre degraus de pedra e sacolejando a ponto de ameaçar quebrar as cangas ou os pescoços dos bois mas jamais soube de alguma pipa haver virado, caído ou machucado algum boi. Os deslizadores dos trenós são feitos de madeira muito dura. Suportam o deslize sobre pedras, paus, neve ou lama com a mesma facilidade que o fariam se fossem de ferro ou aço.
            Métodos mais modernos têm aliviado muito a trabalheira pesada na extração do açúcar e é muito raro hoje ver-se o suco transportado da fonte, pelos trenós. Esse método pitoresco vai mergulhando no passado.
            O bordo opera milagres Os homens não entendem a força que conduz a seiva contra a lei da gravidade. Já ouvi perguntarem se a colheita da seiva em grandes quantidades não aniquila o bordo, como acontece com o pinus cuja seiva fornece terebintina e resinas. Até o que sei, jamais ouvi dizer que o bordo dê mostras de aniquilamento pela sangria que sofre. A natureza sempre o supre. O bordo dá seiva como a vaca dá leite. Sua seiva é leite, não sangue.
            Lembro-me da luta pela supremacia dos métodos de fervura e, de destilação para extração do açúcar. O produto, pelo método antigo, era muito mais escuro que o que se encontra hoje. Mais ou menos como o mel de flor do trigo sarraceno difere do da flor de trevo. Da minha parte prefiro o método velho. Seu produto parece-me mais doce e mais pesado. O processo de extração do açúcar e do tratamento do xarope foi grandemente melhorado nos últimos anos. A seiva entra numa panela de evaporação, passa em câmaras e termina como xarope puro.
            O primo John Fox casou com a filha de um fabricante pioneiro de equipamento de obtenção de açúcar e o negócio ainda existe. Os ruralistas, de modo geral, preferem adquirir o equipamento a troco de xarope de bordo. Isso leva o fabricante a também poder vender xarope. A Companhia Rutland e outra Cia. em St. Johnsbury dividem as honras de fornecedores do mais puro xarope do bordo de Vermont.
            Produzir granulado ou geléia de xarope era operação de que a juventude do meu tempo gastava. Para granular, aquece-se o xarope numa vasilha rasa e, com um garfo ou pazinha de madeira agita-se até que tome uma cor esbranquiçada e a consistência seca. Para a geléia, aquece-se o xarope e em seguida vasa-se-o quente, numa vasilha revestida de gelo, onde ele toma consistência pastosa e donde pode ser retirado até com garfo.
Bolas de açúcar de bordo era outro produto da época da extração de açúcar, nos meus dias de infância Ah, meus dias!
            O xarope de açúcar era essencial para enfeitar bolos, se batido com manteiga. Vovô gostava imensamente desses petiscos... seu neto também.
            Vovô pessoalmente abastecia a casa de farinha de trigo sarraceno e de xarope de bordo.
            Depois de infinito cuidado na seleção da farinha e do xarope, vovô não permitia, a quem quer que fosse, a preparação dos bolos em desacordo com as suas opiniões a respeito. Ouvi-o, certa vez, à mesa, recomendar a vovó :  "O que aconteceu com os bolos de trigo preto, mãe? Eles parecem ser menores do que uma ervilha!"
 "Não sei o que há com eles" respondeu vovó, "Délia os fritou como de costume, só que lhes acrescentei um pouco de bicarbonato de sódio Achei que ficariam azedinhos."
             "Azedas!" exclamou vovô  exatamente o que eles estão. Tire o azedume deles e ficarão excelentes para serem atirados aos cães. O que distingue um bolo de farinha sarracena dos outros bolos é o seu azedume. Para preservar esse azedume é que fazemos a massa na véspera, não é?"
             "Presumo que sim" admitiu vovó "Eu os farei tão azedos quanto você gosta! Você os quer azedos como picles?"
             "Esses bolos não devem ser muito azedos" disse o velho. Concordo nisso com vovô. Se há o que estrague um bolo de farinha sarracena e o ponha amarelado é o bicarbonato de sódio.
            Não se falou mais em bicarbonato.