CAPÍTULO XV
Último Dia de Escola
Durante a minha meninice não era necessário depender de importação
de talento para traquinadas. Tínhamo-lo de excelente qualidade
na nossa pequena cidade. Caleb Pennypacker, por exemplo. Caleb era o filho
de Jonas Pennypacker, um homem extremamente trabalhador, que jamais ria.
Caleb não era nada o que seu pai era mas, sim, tudo o que seu pai
não era. Não trabalhava mas estava sempre rindo.
Sua expressão era risonha durante todo o dia e provocava o riso
de outros. Ele adorava a fama de ser o mais sorridente e o mais malcriado
dos meninos na cidade. Enquanto Caleb morou em Wallingford não
houve tranqüilidade. Ele tinha uma visão peculiar do mundo:
uma enorme piada que deveria gozar sem preocupações. E, na
verdade o fazia.
Para nós, criançada, a mais extraordinária das
habilidades e palhaçadas de Caleb era a capacidade que ele
tinha de transformar-se num velho feio, pelo expediente simples de dobrar
as pálpebras pra fora e permanecer com elas assim durante o tempo
que quisesse. O inusitado aspecto que ele assumia com aquela
deformação, era tal que quem o visse pela primeira vez não
saberia se era pra rir ou pra chorar. E ele a usava constantemente na escola,
de onde, assim, expulsava o tédio. Bastava que o professor se tornasse
mais sisudo do que de costume, Caleb afrouxava a tensão dobrando
as pálpebras. Era, freqüentemente castigado por isso mas nunca
deixou de fazê-lo. Claro, que a gurizada toda o invejava e
fazia o possível para imita-lo, mas, sempre, sem sucesso.
Quando Caleb deixou a escola, a arte de dobrar, as pálpebras
extinguiu-se.
Naturalmente havia mais gente que praticava atividades extracurriculares,
na escola. George March tinha as orelhas móveis como as de
um cavalo. Era uma habilidade notável e freqüentemente punha
a ordem abaixo, praticando-a. Ballow, o sujo de tinta, podia fazer suas
articulações estalarem, como se fossem espoletas detonando.
Tais contribuições mereciam menção honrosa
mas a de Caleb era a que levava prêmio maior de admiração
e excentricidade.
Durante o período de atividade da escola, alguns dos dirigentes
faziam sabatinas inesperadas, a fim de certificar-se do aproveitamento
geral. Quando o dirigente Charles Congdom sabatinava, a gente esperava,
dele, uma ladainha que jamais falhava. Invariavelmente, encerrava-a recitando
um poema que considerava apropriado pra o momento. Ouvi-o muitas vezes
e ainda me lembro:
"Quando eu andava sozinho,
Soia falar sozinho:
.
Cuide-se você, sozinho
E dirija-se sozinho,
Se não o fizer bem
Outro não fará, também"
Sempre que ele entrava na sala de aulas eu quase não me podia conter
de levantar e recitar esses versos.
O Sr. Congdom era, no entanto, um homem muito educado. Entre outras atividades
ele alugava cavalos encilhados a vinte e cinco centavos por hora a quem
pudesse dar-se esse luxo. Eu sonhava com o privilégio inestimável
de alugar um cavalo encilhado do Sr. Congdom, nem que fosse uma só
vez. Se cheguei a possuir os vinte e cinco centavos, não me lembro,
embora tal acontecimento devesse, pelo alto significado, ficar tão
gravado em minha memória, como o fato de haver achado uma pratinha
de dez centavos no monte de entulho atrás da loja de Ben Crapo.
Achar uma moeda de dez centavos não é de admirar. O admirável
seria que alguém, em Vermont, pudesse tê-la perdido sem proclamar
tal calamidade. Com certeza, ela teria sido obtida desonestamente.
Às vezes, meninos serviam como mensageiros autônomos para
proprietários rurais que mantinham transações com
as lojas da cidade. Era mais fácil mandar um menino do que ir o
próprio ou encomendá-lo a um eventual portador. Quando o
menino voltava, era só dizer:
- Obrigado, menino.
Qualquer dia eu lhe dou vinte e cinco centavos, logo que eu tenha miúdo.
Quando me disseram isso, após uma mensagem combinada, foi quando
eu estive mais perto de possuir vinte e cinco centavos.
No primeiro dia de maio os professores costumavam colher flores
silvestres e folhagens para comemorar a chegada das aves migratórias
de volta o seu habitat. Uma vez foi implantado no pátio da escola
um coreto florido e nós dançamos e brincamos a redor dele
à maneira tradicional.
O dia da Decoração era outra celebração que
acontecia em fins de maio. Decorávamos os túmulos dos soldados
mortos na guerra civil com flores e, em cada, um deles, púnhamos
uma bandeirinha. Os veteranos da guerra civil vestidos nos seus velhos
uniformes iam, em procissão, ao cemitério, onde discursos
patrióticos eram feitos. Nossos veteranos davam espetáculos
comoventes. Harlong Strong, superintendente da nossa escola dominical,
Martin Williams, o fabricante de queijos, o Sr. Thomas, colocador de papéis
de parede, todos garbosos nos seus uniformes, punham nossos corações
a vibrar; quando o quarteto da igreja Congregassional cantava "Nós
Adornamos Suas Tumbas Com As Mais Belas Flores do Mato", e, depois, quando
a banda de tambores de Hartoboro tocava "O Corpo de John Brown o
Símbolo da sua Tumba", "Yankee Doodle" e outros dobrados patrióticos.
Embora me tenha isolado de muitas manifestações frívolas,
ainda hoje vêm-me lágrimas nos olhos e percorrem-me o corpo
calafrios de emoção, quando os nossos poucos remanescentes
da Guerra Civil desfilam, manquitolando.
Os sinos da alegria, em verdade, faziam nossas almas vibrarem na primavera:
saltávamos e cabriolávamos como cabritinhos alegres, sem
preocupação do que nos pudesse acontecer. Um dia, o pai de
Fay, que nos observava à distância, gritou: "Cuidado,
piazada, vocês podem quebrar o pescoço! "
Nos primeiros dias de junho chegava o tão esperado "último
dia de aulas". O ar, na casa da escola, se tornava carregado do perfume
doce das peônias vermelhas, rosadas e brancas. As meninas, ataviadas
nos seus vestidos de verão e os meninos empertigados, nas suas incômodas
vestimentas de domingo.
Longos discursos eram decorados a noite, em casa, e só o pavoroso
bicho papão, o nervosismo, impedia que eles fossem pronunciados.
Não se pode fugir da realidade que esse bicho papão é
fator reconhecidamente silenciador. Começa a agir cedo, muito antes
da hora fatal. Durante a quietude da noite ele já se vai apoderando
da sua vítima. Poder haver suplício mais temível do
que esperar que o nosso nome seja chamado para participar do programa do
"último dia de aula"? Uma após outra as vítimas são
executadas: tomam posição no "patíbulo", tremendo,
lutam com o bicho-papão, e voltam, ansiosas, para os seus lugares,
vencedora5 ou derrotadas.
Afinal, o último nome do programa. Nada há para estimular
a vítima além do pensamento que está iminente o fim
do sofrimento e da visão clara e festiva dos gloriosos dias de férias.
Um suor frio lhe surge na testa, de algum lugar distante vem uma voz surda.
. . O que é que ela está dizendo. . . - "Paul Harris vai
recitar "O menino polonês". Levanto-me. O "bicho papão", timidez
se encosta em mim. Outra voz, alta e enérgica... Quem ?... Sou eu
mesmo, bravo escoteiro! Tenho impressão vaga de que nós três,
o "Menino Polonês", o "bicho-papão" e eu estamos juntos na
tarefa a executar. Uma mulher, na cadeira da frente, está profundamente
preocupada com o seu chapéu novo e parece pouco interessada com
os excitantes acontecimentos em curso. Graças a Deus ela não
vai prestar atenção! Eu quisera que todos os presentes tivessem
chapéus novos, que os preocupassem ou outro motivo qualquer, que
os fizesse não se importar comigo.
Finalmente, soa a última palavra na sala silenciosa e Paul Harris
volta sua carteira sob aplausos e palmas. O "Menino Polonês"
sumiu e o "bicho-papão" foi enterrado para não ressurgir
durante um ano, quando os acontecimentos correntes trouxerem outro "último
dia de aula".
O professor encerra a cerimônia com palavras apropriadas bate o sino
pela última vez. Eu me safo, por entre um atropelo de mães,
pais, irmãos e irmãs, por fora da atmosfera pesada da sala
perfumada pelas peônias. Por fora onde posso respirar ar puro e apressar-me
para ir nadar! Oh! O tanque onde nadávamos durante as gloriosas
e descuidadas férias que se abriam!
Oh! Dias da minha infância!
Frias de junho esperadas!
Sons, visões, culminâncias
Das saudosas traquinadas
Oh! for boghood's time of june
Crowling years in one briefmoon
When all things I heart or saw
Me, their master, waited for
(John Greenbaf Whittia)
As férias eram dias de preocupação para meu avô.
Um dia convidou-me para uma conversa reservada. Fomos ao celeiro, sentamos,
ele no carrinho de mão e eu no braço móvel da grade
de ração. Ele então disse :
- Paul, quero conversar a respeito de seu futuro. É assunto
que me preocupa. Há tempo que me pergunto se o estou conduzindo
como devia. Acho que logo que os meninos crescem, devem ter alguma obrigação
a cumprir. Aqueles que trabalham desde a meninice têm grande vantagem
sobre os que não o fazem. Você, até hoje, nada faz
a não ser vagabundear desde manhã até a noite. Não
há, agora, aqui, outro trabalho além do meu mas eu quero
que você reserve algumas horas dos seus dias de férias para
estudar e que comece a fazê-lo imediatamente".
Ele tirou do bolso uma antiga cartilha já amarelada pela idade
e começou a pronunciar palavras para que eu as soletrasse. Isto
foi repetido muitas vezes durante o verão e em certas ocasiões,
eu, apesar de com muita preguiça, as soletrava o melhor que podia
mas com visível revolta. O tanque onde nadávamos gritava
convidando-me a mergulhar e eu temia que a turminha fosse embora antes
de eu terminar a minha tarefa. Se tal acontecesse, meu dia estava perdido
irremediavelmente. Só podiam compensa-lo uma luta, uma fogueira
ou um circo, à noite. Mas eu não podia esquecer as
palavras de vovô.
A sede de aprender é uma característica do povo da Nova Inglaterra.
Daqui se estendeu por todos os EEUU. O senador Jostin S. Morril, pai da
política agrária, era vermontense. Em virtude dos seus esforços,
colégios agrícolas foram criados por todo os EEUU.
Não contesto que a leitura elevada possa sensibilizar mas não
aceito que o "Progresso dos Peregrinos", nem "a vida de
"Plutarco" estejam nessa categoria. "O Índio Pete" e estórias
similares, para os jovens, estimularam a minha imaginação
e fomentaram mais explorações no campo literário.
No entanto, as manifestações da natureza, ao ar livre, são
muito mais atraentes...
Vivendo entre montanhas como eu, subir nelas seria a minha tendência
mais natural. Pedra Branca, junto a Wallingford, e o Pico Killington, próximo
a Rutland, eram desafios para mim. Minha experiência de escalar essas
duas inspirou-me a, muito mais tarde, experimentar tarefas muito muito
mais avançadas em Rockies Mountain.
A escalada da montanha "Pedra Branca" iniciava-se num enorme monte
de resíduos de penhascos, destroçados, na costa da montanha,
durante uma tempestade de gelo e tremor de terra. Nas pedras havia líquens
numa extensão aproximada de 4,5 metros e na superfície de
muitas delas havia inscrições de iniciais de visitantes de
gerações passadas, alguns dos quais distinguidos empresários
ou profissionais. O nome J. T. Troubrdge, o escritor de histórias
infantis, que morou em Wallingford, aparece entre as inscrições.
Após vencida a zona dos penhascos começava a face escarpada
da montanha. Não seria proeza para um alpinista a sua escalada mas
para um principiante, era. Conheci poucos que tentaram a escalada. Prá
mim era um desafio. Eu teria de vence-lo. Penso que senti maior satisfação
com a primeira escalada do morro das "Pedras Brancas" do que quando venci
o "Pike's Peak" anos mais tarde. Prometi a mim mesmo a subida, no dia em
que vovô decidiu que eu era muito criança para acompanhar
um senhor numa expedição àquela montanha para colher
espécimes raros de líquens. Hei de crescer, pensei, e ficar
forte! Hei de mostrar que sou homem! O alto da Pedra Branca, detinha um
interesse romântico peculiar que me estimulava o desejo de conhecê-lo.
Dizia-se que o Capitão Kid enterrara, nalgum desvão do cume
daquela montanha, uma caixa de ouro. Como o Capitão Kid pôde
vir ao Pedra Branca, não me perguntem. Eu também, não
sei.
Outra razão que me estimulava o desejo de subir naquela montanha
era ter uma visão ampla do meu vale. No verão não
era possível ver-se, do alto, os telhados das casas da aldeia. A
vegetação exuberante, ali existente, o impediria. Do riacho,
ter-se-ia apenas a noção do curso. No entanto, além
da aldeia, ao pé da Montanha Oeste (West Mountain), a lagoa da Raposa
(desculpem, lago Elfim) podia ser vista brilhando ao sol. Quente e suando,
como eu estava, a visão da água límpida era uma atração
irresistível. Por isso determinei ir lá para um mergulho
refrescante quando voltasse mas não me lembro de haver colocado,
nas múltiplas visitas que fiz, em primeiro plano a resolução
de fazê-lo. Às vezes eu voltava ao frescor da tarde e a água
parecia menos atraente. Outras vezes eu me sentia cansado ou tinha muitos
que fazeres, quando o grupo se reunia para o encontro.
Nas tardes quentes quando resolvíamos percorrer os caminhos do mato,
o lago, de fato, nos atraia. Então um de nós gritava "O último
que chegar . . . etc. etc." Partíamos então, correndo, e
saltávamos para dentro d'água como rãs gigantes. Que
dias felizes! Havia outros lagos temporários na primavera, que ornavam,
como grandes pedras preciosas, as colinas e os montes, ao redor de Wallingford.
A lagoa Shrewsbury, a Tinmouth e as duas Sugar Hill, às vezes chamadas
"óculos" por causa da aparência que davam de um gigantesco
par de óculos. A lagoa Griffin, no alto das montanhas do lado leste.
Suas águas eram frígidas e sugeriam convite pesca de
trutas pela profundidade e a coloração entre a rosa e o salmão,
que ostentavam.
Havia, ainda, os grandes lagos: Bomoseen, St. Catherines, Dunmore. Um pouco
mais distantes, o Champlain e o lindo Lago George. Ninguém jamais
se apôs a que se desse o nome de lagos a estes grandes depósitos
de água. Apenas uns poucos resistentes chamavam o lago Romoseen
de lagoa Castleton.
Quem quisesse ter uma visão ampla das montanhas circunvizinhas,
colinas, lagos e lagoas teria que subir a montanha de Ratlesnake perto
do lago Dunmore, escolher a árvore mais alta e, do mais alto galho
dessa divisaria tudo para o lado norte, até a divisa com o Canadá.