CAPÍTULO XVII

Um Natal Frustrado

            Vovô, homem previdente, se aborrecia muito com a leviandade do filho e o comportamento fútil da nora. Temia que eu, também, pudesse adquirir hábitos desregrados. De todas as formas ele me estimulava à economia. Como para mostrar-se solidário, deu o primeiro passo, abrindo uma conta no Banco Econômico de Rutland e exortava-me a fazê-la crescer. Eu não seguia os seus conselhos de muita boa vontade, mas, de alguma forma, a conta cresceu. Vovô não me dava descanso.
            Lembro-me que foi feito o depósito com o resultado de uma experiência que causou-me profundo desgosto. Foi numa manhã de Natal. Eu costumava pendurar minhas meias, na noite de Natal, na esperança de que, no dia seguinte, elas estariam cheias e, além disso, haveria pacotes ao redor.
            Trêmulo de excitação, esgueirei-me da cama, antes de o dia clarear, atravessei a sala de jantar e, na sala de estar, dirigi-me para a lareira. Achei as meias onde as havia pendurado mas, para meu indizível desapontamento, elas estavam molemente penduradas, portanto, aparentemente vazias. Caí no choro e meus soluços  atraíram vovó que, consolando-me, fez com que eu examinasse as meias, introduzindo nelas, até as pontas, a mão. Numa delas havia um pacotinho que, desfeito, mostrou ser uma moeda de ouro de cinco dólares. Senti-me desgraçado e rompi num choro soluçado. Eu esperava aquilo que costumava vir: livros, patins, talvez um relógio, pipoca e outras coisas que fugiam da minha imaginação. Se o Natal significasse menos dó que uma introdução ao reino das fadas, então, para mim, não valeria nada.
            Depois de muita troca de idéias entre vovô e vovó, o assunto ficou com ele. Sob seu comando pendurei minhas meias outra vez e esperei um tempo razoável para que Papai Noel repetisse a visita. Tempestivamente, repeti a busca e, cheio de maus pressentimentos, enfiei a mão na meia. Lá estava outra moeda de cinco dólares! Artes de vovô! Aquilo era mais do que a natureza humana poderia suportar! O meu desapontamento explodiu do meu peito; num urro de dor e desespero.
            Vovô desistiu e vovó tomou as providências para que o meu sonho se tornasse real. Vovô não retirou as suas dádivas e as duas moedas de cinco dólares foram engordar a minha conta de economia. Boa coisa para acontecer a quem ainda não completara nove anos de idade.
            Apesar da minha falta de entusiasmo para economizar, a minha conta cresceu 1.500 dólares até que eu alcançasse a maioridade. Quando, no entanto, ela passou a ser disponível para mim, foi rapidamente movimentada. No entanto, digo-o para minha tranqüilidade, consumia-a, em maior parte, para pagar dívidas de meus pais, muitas das quais já vencidas.
            Acabou assim o meu ensaio para milionário, embora eu ponha em dúvida que vovô desejasse que eu o fosse. Ele era conhecido e considerado em toda a parte como homem frugal. Os poucos gastadores da aldeia até o consideravam avarento, embora eu nunca tenha ouvido alguém dizer isso de meu avô.
            Era, em verdade muito econômico. Não tolerava qualquer ato de dissipação. Tinha o senso da ordem, pois tinha lugar para tudo mas isso era uma característica do povo da Nova Inglaterra, naquele tempo. Ele pretendeu instalar o mesmo espírito nos seus filhos e netos pra torná-los independentes e respeitados. Estava convicto de que o caminho mais certo para isso era a educação do amor próprio para o estoicismo e para a retidão de conduta. Sempre admirei-lhe a aguda percepção da oportunidade de educar, pois as que se lhe apresentaram, no curso da vida, não foram muitas. Ele visava amparar-se nas próprias experiências e no comportamento do seu filho, meu pai, e prover vantagens de educação para o neto, tanto quanto lhe fosse possível alcançar e realizar.
            É isso, em verdade, o que se pode atribuir ao meu avô, quanto à sua conduta em favor da minha educação. E, sem medo de errar, posso afirmar que, não obstante a minha aversão por leitura e aos "faça isto e não faça aquilo" (não muito numerosos, é verdade) e, ainda, as minhas reincidências sem conta, eu absorvi a substância dos seus ensinamentos.
            Uma das personalidades marcantes em Wallingford, nos meus tempos, era o Dr. Ainsworth. Morava numa encosta, mais ou menos nas proximidades da "cama de gelo": Embora não fosse licenciado por escola médica, ele medicava muita gente que, por saber, menos que ele, o procurava. Suas panacéias tinham fama de ser "tiro-e-queda". Se algum paciente sobrevivesse ao uso interno delas podia considerar-se imune a todos os males orgânicos.
            A aplicação externada "tiro-e-queda" do "Dr. Ainsworth, tanto em seres humanos como em animais domésticos,  era bastante conhecida mas as suas virtudes em uso interno somente o "Dr. Ainsworth" as conhecia e proclamava.
            O "Dr", alto e magro, era figura muito conhecida, na comunidade. Portava sempre uma bengala e tinha, no olhar, penetrante um brilho peculiar. Ninguém, talvez nem mesmo ele, sabia a sua idade. Sua casa se situava em lugar onde pouca gente passava. Podia ser considerado um ermitão.
            Com tais predicados a sua glória maior se refletia em personalidade muito mais luminosa que a dele, sua irmã. Ela era famosa, embora muito pouca gente do vale a conhecesse. Dizia-se que era vidente e, como tal, fizera nome em Boston.
            Embora essa cidade fosse então, como hoje, considerada muito culta, seu povo não era muito versado em ocultismo. E era essa ciência que fazia a fama da irmã do "Dr. Ainsworth", como o largo conhecimento de panacéias fazia a dele.
            Praticava o ocultismo, com simplicidade. Quando, consultada por um bostoniano aflito com problemas de amor, financeiros, de conceito social ou de saúde, ela, pura e simplesmente, entrava em transe e se punha a falar, docemente, aconselhando, confortando e erguendo esperanças com palavras de sabedoria, que fluíam dos seus, lábios como que de uma fonte divina. Tornou-se conhecida como a "Lucy adormecida" e sua fama, se expandiu a longos limites.
             Para assinalar o seu sucesso e fazer alguma coisa em favor da sua aldeia de nascimento ela assumiu transe peculiar, um mito em Wallingford, que seus habitantes podiam afirmar como exclusivo. "Lucy Adormecida" revelou um fato desconhecido e insuspeitado: revelou que o Capitão Kid havia visitado o nosso vale a procura de um lugar próprio para guardar o seu mal adquirido mas famoso tesouro. Quando o seu olhar penetrante caiu sobre a "Pedra Branca", brilhando ao longe, a oeste do lugar onde o "Doutor" e sua famosa irmã moravam, ele certificou-se que lá séria o lugar certo. E lá o enterrou profundamente, ao abrigo da cobiça dos homens predadores de fortunas.
            Pode dizer-se que a afirmação de "Lucy Adormecida" é, apenas, lenda. Muita gente refuta a, veracidade dela. Eu a considero, de fato, como a adaptação de lendas como as da Noruega, que levantam fatos prosaicos à área da fantasia poética. Tais lendas enriquecem o folclore das nações.
            Havia uma "Lucy Adormecida" que muitos de nós conhecemos, e muitos foram seus seguidores. Para ela, teria sido plausível e fácil a criação da figura do Capitão Kid atuando no vale. Ninguém é capaz de fixar o limite exato entre a realidade e a ficção.
            Devo confessar que a história da "Lucy Adormecida" sobre o Capitão Kid era uma das razões pelas quais eu desejava escalar o "Pedra Branca". Eu poderia esquadrinhar, por entre as fendas das pedras, a existência de indicações onde os enterradores do ouro do Capitão localizaram o esconderijo. A miserinha de uns cem dobrões ou de um milhar de dólares seriam bem vindos às minhas mãos!... Como eu sonhava com isso!
A afirmativa do adágio, "erros acontecem até para as famílias mais nobres" foi confirmada numa tarde de verão em que vovó saíra atendendo um chamado de vizinhos. Vovô ficara atendendo a casa, um dever que ele abominava e raramente assumia.
            Era fato corriqueiro que a Sra. Hudson Shaw viesse à nossa casa pedir uma xícara de fermento por empréstimo. Emprestar era o termo usado, embora nem a senhora Shaw nem vovó tivesse  a mais remota idéia de que empréstimo significasse o retorno do fermento. A ficção só era admitida quando fermento fosse o objeto da transação. A chave inglesa ou a de fenda, quando emprestadas, voltavam mas o fermento, não. Duvido que vovó suportasse o susto de, um dia, a sra Shaw entrar lá em casa com uma xícara de fermento dizendo: "Aqui está Sra. Harris, o fermento que levei emprestado".
            Na oportunidade do fato em questão, era vovô quem fazia as honras da casa. Correspondendo gentilmente à solicitação ele apanhou o pote marrom de fermento da prateleira da adega e, inocentemente, removeu as amarras com as quais vovó mantinha a tampa. Houve uma explosão e a cabeça de vovô transformou-se numa bola de fermento, sem nenhum traço fisionômico! Sem compreender o que acontecera eu abri a boca no mundo, gritando como qualquer criança o teria feito, ao ver-se destituída do único avô que possuía. Prá falar a verdade, nós tínhamos nos desacertado, mas não era razão para que ele ficasse sem cabeça. Eu não sabia o que a Sra. Shaw tinha a haver com aquele espetáculo assustador e olhei-a cheio de suspeição. A Sra. Shaw era considerada uma velha senhora muito boa e era a mãe do meu professor,
Will Shaw, mas agora eu relacionava aquele susto com o fato de ela haver atravessado a, soleira da porta da nossa casa. Quatro touros e uma pantera não poderiam ter causado maior distúrbio ao sossego da nossa casa do que ela e a sua xícara de fermento o fizeram.
            A primeira indicação que me veio de que vovô tivera um desaparecimento tão extemporâneo, foi quando aquela bola de fermento se voltou para a Sra. Shaw e eu pude ouvir claramente aquela exclamação tão familiar: "Ora, essa!" Aquela era a expressão mais próxima da profanidade, saída de vovô. Com meus botões eu tomei a exclamação como se a bola de fermento estivesse dizendo: "veja, sua vaca, o que você fez com esse aborrecido me empreste uma xícara de fermento! Que seja uma lição prá você, sua chata! Sempre tentei ser um bom vizinho e penso que o sou mas agora estou sentindo na pele a minha credulidade!"
            Sei que se vovô tivesse tido esse pensamento ele ter-se-ia arrependido e envergonhado. De qualquer forma, eu afirmo que nunca mais soube que vovô pusesse a mão num pote de fermento e quando vovó manipulava algum ele sempre tinha um assunto urgente a atender lá fora.
            Não acontecem grandes perdas sem algum ganho e, pois, a partir de então, senti que se estreitou a estima entre vovô e eu e passamos a nos entender melhor. Quando vovó voltou do seu chamado encontrou-me adormecido no colo de vovô, abraçado estreitamente ao seu pescoço. Eu não queria afastar-me dele, pelo menos enquanto vovó não voltasse. Quanto à Sra. Shaw passei a ter ganas de estrangulá-la se a visse cruzar o vão da nossa porta com uma xícara vazia na mão.