CAPÍTULO XVIII

Cupido e Baccho

                Meus avós não eram dados a reuniões sociais. Os vizinhos visitavam vovó e ela "pagava" as visitas. Tia Lib Martindale visitava-a com freqüência é vovó gostava muito que assim fosse. Lembro da figura corpulenta de tia Lib, oscilando vagarosamente e relatando as novidades que lhe chegavam aos ouvidos e quando vovó lhe dizia alguma coisa, tia Lib mostrava a sua atenção ejaculando um prolongado "ieee". Se "ieee" é uma contração gramatical, um substantivo, um pronome, verbo, advérbio, eu não sei mas que ouvi milhares de "ieee", ah! Isso, ouvi! Tia Lib tinha, também, um hábito nervoso, um cacoete, de fechar repetidamente os olhos com força e abrí-los desmesuradamente, em seguida. Eu tinha vontade de perguntar-lhe a razão do cacoete mas evitava-o por respeito à vovó. Ela usava um chale sobre a cabeça quando vinha articular a  casa Martindale com a nossa. Durante a visita o chale caia-lhe sobre os ombros cobrindo-lhe o pescoço.
            Os feitos dos Fox, meus primos de Rutland, eram o objeto central da conversação quando tia Lib ia lá em casa. Parecia-me que todas as aptidões dos jovens de Rutland eram julgadas por vovó e tia Lib, na pesquisa de um pretendente para minha prima Mary, quando ela atingisse a idade de casar. Qualquer rapaz que apenas houvesse tocado a aba do chapéu, num cumprimento gentil à Mary, era apontado como pretendente em potencial e posto na lista para crítica ou elogios. Eu tinha um fichário mental. de "Quem é quem" da rapaziada toda e podia descrever um por um, se elas me perguntassem sobre as chances de captura pela prima Mary.
            Um a um, vovó e tia Lib planejavam o casamento dos muitos filhos da família Fox. Punham um rapaz no negócio e outro na profissão, casavam as moças e traçavam-lhes distinguidas carreiras, enquanto eu, sentado num banquinho ao lado de vovó, julgava as conclusões a que chegavam.
            Claro que havia erros nas considerações delas. O Joãozinho não seguiu os passos do pai e nem tornou-se doutor, como o conselho planejava; a fiel e sacrificada prima Matie, mais ou menos da minha idade e minha preferida, prolongou os votos conjugais para muito além de todas as esperanças.
            Os erros de prognósticos enfraqueceram a minha fé na infalibilidade da estratégia do "conselho" mas eu me sentia dignificado por poder assistir às manobras. Era como assistir a uma partida de xadrez entre dois azes, considerando os meus primos como as figuras do jogo.
            Conquanto os feitos e os projetos de vida das crianças Fox fossem o centro da conversa, eles não estavam desacompanhados. Alguns aldeões eram honrados com menção específica mas eu posso lembrar-me que tia Lib jamais elegeu qualquer outra mocinha da região, que não fossem Delia ou Mary, para serem assunto das suas conversas.
            Para ela, no entanto, ficam meus agradecimentos por haver-me proporcionado a primeira noção de vizinhança. Da boa, da antiga vizinhança inconspurcada pela afetação, que se prolonga por anos e anos com características cada vez mais solidárias.
            Os vermontenses eram conhecidos pela sua frugalidade e no nosso vale havia alguns campeões. Entre eles a Sra. Abigail Soleridge, tia Abe, como o chamávamos. Tia Abe, certa vez, foi tomada por um reumatismo que a reteve na cama por alguns dias. Alguém aconselhou-lhe tomar salsaparrilha de Hood. Para fugir do preço mais alto do retalhista, ela comprou uma dúzia de vidros numa drogaria em Rutland. Por efeito da salsaparrilha ou outra causa qualquer o reumatismo abandonou-a logo em seguida.
            Elisa Huntoon, sua vizinha, visitando-a, viu que ela tomava doses liberais do remédio, embora estivesse sassaricando como uma sirigaita. Perguntou a tia Abe:  "Porque tomar remédio, se você já sarou, tia Abe?"
 "Que sarei, sarei! Mas saiba que paguei 75 centavos cada vidro de salsaparrilha e você não vai querer que eu perca esse dinheiro todo! Ou vai?"
            A casa vizinha, do lado sul da nossa, era do juiz Button, um cavalheiro educadíssimo que servira como juiz municipal em Rutland por muitos anos continuando, não obstante, a morar em Wallingford. Durante os últimos anos de vida foi juiz de paz em Wallingford. Cabiam-lhe as pequenas causas de má conduta e os julgamentos, às vezes, eram diversão para nós, meninos. As causas mais comuns eram oriundas de bebedeiras e brigas e os  participantes eram quase sempre os mesmos.
            Bob Rutherford era um dos figurantes mais assíduos. Ele jogava basebol, como apanhador, e nisso era bom quando estava sóbrio e podia ver a bola. Tinha suas excentricidades, que se manifestavam tanto por bem quanto por mal. Certa vez ficou doente e um amigo aconselhou-o  a tomar uma colher de bitter Hostever. Bob raciocinou que, se uma colher fazia algum bem, muitas colheres o fariam muito mais e... foi ao fundo da garrafa. Pensamos que ele ia morrer mas, quanto, mais ele tomava, mais risonho ficava, e quando ele acabou tomando de sobrecarga, quase meio quilo de mel que comprara, concluímos que ele só  morreria se alguém o matasse, o que muitos gostariam de fazer.
            Todos os meses, ou de dois em dois meses, Bob se sentia próspero. Tomava uma moringa e ia para a fronteira do Estado de Nova York, à vinte e cinco milhas (40 quilômetros), onde os peregrinos, ressequidos na proibição de bebidas alcoólicas de Vermont, costumavam mitigar a sede. Na volta,  Bob iniciava, o trajeto com a moringa cheia e o "caco" vazio mas terminava-o com a moringa vazia e o "caco" cheio. Embora a legislação de abstinência fosse freqüentemente violada, havia muito mais ordem e limpeza nas cidades de Vermont do que nas dos Estados limítrofes. Os estaduanos novaiorquinos, das cidades limítrofes, se queixavam que não as podiam conservar limpas e em ordem porque eram freqüentadas pelos vagabundos de Vermont.
            O juiz Button, que presidia a corte de justiça, era surdo e solene. As testemunhas tinham que falar alto, quase gritando, especialmente os acusados e seus advogados. Não havia advogados formados mas os senhores Elija Brewster e Charles Congdom funcionavam como tal.
            Elija Brewster era apontado como um dos nossos mais distintos cidadãos. Era um homem versátil, misto de fazendeiro, capitalista e político. Durante as campanhas políticas ele se mostrava muito influente e, para, as comemorações da independência, era considerado indispensável. Para usar a gíria, Elija Brewster podia "fazer uma água cantar". Sob a sua firme liderança, podíamos repetir todas as passadas batalhas que tivéramos.
            Muito enfronhado nos eventos da revolução, pouco sabia, no entanto, sobre a guerra civil. Todos os que o ouviam o consideravam um extraordinário guerreiro e lastimavam que ele houvesse nascido tão cedo para lutar numa das guerras, e tão tarde para fazê-lo na outra. Seus discursos eram inspirados e faziam a gente inchar, crescer até quase estourar. A gente sentia que os EUA podiam vencer, facilmente, todas as nações do mundo reunidas. Que um americano valia por dez cidadãos de qualquer outra nação. Que o mundo era só os EUA. O resto das nações nada valiam.
            Aprendíamos também que a América sempre esteve estritamente correta e que seus oponentes sempre estiveram errados. Quem pensasse ao contrário era um traidor do seu país. O que aconteceu para que o nosso país se tornasse um paradigma de virtudes é assunto para conjecturas. O Sr. Elija se baseava em fatos e não em teorias. O que ele dizia era a verdade integral. Ninguém que amasse a sua pátria poderia deixar de reconhecer a sua infalibilidade em todas as coisas.
            Não sei qual dos dois, se o Sr. Brewster ou o Sr. Congdon, tinha mais conhecimentos da lei. Na verdade a crença geral era que nenhum dos dois tinha tanta profundidade de conhecimentos quanto o Juiz Button, surdo como uma porta. No entanto, tanto Brewster como Congdon pareciam muito competentes mas tudo podia modificar-se quando o juiz Button subisse à tribuna.
            Surdo ou não, o juiz sabia separar o trigo do joio. Quando Elija Brewster subia à tribuna, sua voz tremia de emoção e ele gesticulava num agônico frenesi. Tenho a impressão que Brewster levava alguma vantagem agindo assim. Muitas vezes nos fez verter lágrimas. Mas eu sentia que ele poderia moderar o trêmulo da voz, quando se manifestava por Bob Rutherford e que seria preferível dar-lhe uma garrafa de bitter e um pouco de mel.
            Bob, depois de uma luta, parecia um bife bem batido mas se sentia mais animado depois de ouvir Brewster falar e chorar por ele. Embebedar-se e brigar eram, ao que parecia, as únicas rasões espirituais de Bob. Ele jamais ia à Igreja, nem mesmo às tardes de sexta-feira, para as orações na capela pequena.             Provavelmente as explicações teatrais que Mr. Brewster dava sobre o moral das brigas de Bob também nos convenciam. Excetue-se apenas o Sr. Congdon. Era, este, um veterano e não se deixava levar por tais cenas. Ademais ele estava do lado oposto e fazia questão de mostrar que não acreditava numa única palavra de Mr. Brewster e que o considerava um réles rábula.
            O Juiz Button ouvia paciente e respeitosamente as advogados e testemunhas. A só presença do Juiz impunha um caráter de dignidade nas sessões da corte de Wallingford.
            Ninguém, sequer, pensava de falar alto ou rir e todos, automaticamente, se descobriam na pequena sala. O juiz jamais deu quaisquer ordens, que eu me lembre. Todos, instintivamente, procuravam comportar-se como ele durante as sessões da corte.
            Boas ou más as coisas têm um fim e, passado algum tempo, venceu-se o mandato do Juiz Button. O bom e reto juiz deitou-se, certa noite, cansado, e nunca mais levantou. Correu um frêmito de tristeza quando circulou a notícia da morte daquele homem.
            As portas do pequeno tribunal se fecharam temporariamente e o povo pode sentir o quanto ele significava para a vida comunitária.
            Tenho a impressão que até Bob Rutherford sentiu falta do tribunal. Que fosse o costume de beber e brigar a razão de reabrir-se a corte, não se deve nem pensar. Isso seria tarefa insignificante para um artista competente e temperamental como Bob realizar sozinho. Edwin Booth, Joe Jefferson e Nat Goodwin, reunidos, não se igualavam a ele.
            Não havia delegado residente em Wallingford mas o Sr. Harvey Congdon, irmão de Charles Congdon, fazia esse papel. Quando vagabundos entravam na cidade o que se tinha de fazer era procurar o Sr. Harvey Congdon. Era velho, magro e tinha os pés virados para dentro mas, mesmo assim era, o melhor jogador do "boche" de Wallingford. O reverendo Archibaldo, ministro batista, era o segundo.
            Onde quer que Harvey apanhasse um vagabundo ele costumava dizer-lhe: "Fique longe de mim". Não havia preliminar: dito isso ele tomava o indivíduo pelo braço e punha-o pra fora dos limites da aldeia. Antes de largar o preso olhava-o, firme e longamente, nos olhos, como se estivesse gravando as suas feições para um próximo encontro. Dava resultados: o indivíduo não voltava mais a Wallingford.
            Harvey tinha o hábito de cuspir repetidamente, quando se agitava. Nós, o povo da aldeia, o conhecíamos e não nos importávamos com aquilo e, também, a maior parte da gente mais fina o desculpava. Nunca vi o Sr. Harvey praticar exercícios de cuspir que pudessem levá-lo a ser chamado de "artilheiro" mas, estou certo, quem não o conhecia e o via cuspindo a direita e a esquerda, tratava logo de por-se fora do seu raio de alcance.
            O pessoal de Clarenden dizia que o Sr. Congdon espantava mais vagabundos do que todos os policiais destacados no município. Em Vermont os policiais eram relativamente tolerantes mas os mendigos tinham que admirar bem depressa as belezas turísticas da nossa região e zarpar.