CAPÍTULO XIX

Uma Lamentável Tragédia

              A lagoa da raposa não poderia existir sem oferecer oportunidades para algumas tragédias. Uma das mais bonitas moças de Wallingford e das mais virtuosas, encontrou a, morte nas águas da lagoa. Ela era muito mais velha que eu e tinha estreitas ligações com a nossa família, pois morara, tempos atrás, com minha avó. Naquela época era usual, na Nova Inglaterra, que moças das mais educadas famílias fizessem os trabalhos de casa se não houvesse outra ocupação. A sua posição social não era afetada com isso. Pelo contrário, isso era considerado, além de digno, um auxílio financeiro à família.
            Nancy era uma esbelta morena de olhos negros com atributos de alcançar qualquer posição que aspirasse. Era admirada por todo o povo da aldeia, tanto pelos jovens como pelos adultos e velhos e uma sombra desceu sobre a comunidade, com o seu desaparecimento. Psicótica, ela sofria profunda depressão e certa noite levantou da cama, esgueirou-se sorrateira, pelo mato até a lagoa - local de tantos piqueniques felizes - e, com a mais fria determinação, deixou-se afogar numa profundidade não maior que a altura dos próprios joelhos, onde na manhã seguinte, foi facilmente encontrada morta.
            A perseverança com que Nancy perseguia a morte foi assunto de conversação por muitos anos. No entretanto, só se ouviam palavras de lástima, jamais de condenação. Foi uma perda sentida no vale, pois Nancy fora muito querida. Era uma história triste que a comunidade recordava consternada: o desaparecimento de um a um da família. Primeiro o pai de Nancy, depois a mãe, em seguida o irmão, atacado de tuberculose. Nancy concentrou toda a sua capacidade de afeição na sua irmã mais moça, Lizzie.
            Na nossa comunidade a vida social era muito restrita. A maioria dos jovens saia dali a procura de melhores oportunidades. As duas moças Gleghorn conseguiram empregar-se, como outras, jovens educadas o faziam, em Nova Inglaterra, na fábrica de camisas de Troy, New York, sessenta milhas ao sul.
            O trabalho, ao lado de estranhos era sacrificante mas as moças necessitavam ganhar a própria vida. No entanto, mesmo trabalhando longe, elas tinham oportunidade de vir à casa periodicamente.
            A parceria foi, porém, quebrada, quando Lizzie passou a tomar conta da casa de uma vizinha muito idosa ,enquanto Nancy ficava só, em Troy. Frank Miller morreu deixando em testamento tudo o que  possuía para Lizzie. Nancy sentia-se feliz com a boa sorte da irmã. Lizzie, então, casou-se e Nancy viu-se só na vida. O seu último amparo emocional se fora. Isso foi mais do que ela podia suportar. Não havia mais razão para viver. Ela sempre quis sentir-se útil, para viver. Agora, tudo se esvaira. Não havia, mais finalidade para a sua existência. Por isso, dera-se aquele triste e lamentável fim.
            As histórias da migração de jovens ambiciosos  para o oeste são plenas de incidentes românticos e interessantes. Eles deixavam aldeias e fazendas, pelo desconhecido, armados só de bons princípios e vontade de trabalhar. Enquanto viajavam eram alentados pela esperança do sucesso e a determinação de prestar contas tão somente a si próprios. A poucos passava pelo pensamento, mesmo face ao exemplo de Nancy e Lizzie, que partiam para tornarem-se troncos de nova família. Em raros casos, as mocas da Nova Inglaterra, corajosas e determinadas, assumiam a iniciativa de ir para o oeste. Algumas que, por si próprias, assumiram a independência, tornaram-se professoras e poucas regressaram. Certa vez um migrante, que foi bem sucedido no oeste,
carregou um navio de moças casadoiras de ao redor do Cabo Horn para Portland, Oregon, as quais levavam a esperança de encontrarem prontamente bons maridos. N'outra oportunidade, o fundador de uma rede de restaurantes do sudoeste publicou um anúncio, convocando moças que quisessem estabelecer residência definitiva no oeste. Este empregador de centenas de moças, provavelmente contra os seus próprios interesses, auxiliava-as a conseguir casamento sempre que lhes aparecesse oportunidade. Ser empregada, como garçonete, numa das excelentes casas de pasto ao longo da linha de Santa Fé, bem logo passou a ser um seguro satisfatório de respeitabilidade e, dai muitos bons casamentos se conseguiram. Se a encantadora Nancy tivesse conhecimento de tais oportunidades ela, provavelmente, não se teria afogado.
            Não haveria melhor dona de casa nem melhor mãe do que Nancy.
            Em caso de haver quem não conhece o significado de "moça alugada", naquela época, eu posso assegurar que não é o mesmo que o das cidades, hoje. Era uma criatura, sem nenhum sinal de servilidade, junto à família. Não havia nenhuma discriminação para, ela à mesa ou em outro qualquer lugar da casa. Era como se fosse membro da família. Sentava à mesa, após posta, e servia-se de tudo o que havia; passando e solicitando os pratos de que a família se servia. Aí, ainda, ela podia derramar os petiscos das fofocas, que colhia na comunidade com admirável abundância.
            Tinha alto sentido de dignidade e não se curvava a ninguém e em nenhuma circunstância. Por exemplo:  certa  vez uma senhora pediu a sua "Biddy" que usasse uma touca e um avental para servir uns hóspedes distintos da cidade. "Biddy" respondeu prontamente:  "a senhora quer me fazer de palhaço? Por que a senhora não põe essa touca ridícula e esse aventalzinho bobo? Eu, Bridget Moriarety, é que não me submeto a isso!"
            Uma empregada doméstica de hoje é tão parecida com a daquela época como um cavalo alazão a é com um cavalo zaino. A nossa Mary e a Mira dos Stafford tinham um programa. Reuniam-se todas as noites para trocar fofocas. A seleção destas dava tempero aos assuntos comentados à mesa. Nunca faltavam assuntos na conversa da nossa mesa e, tanto Mary como Délia, contribuíam generosamente com eles.
            A fidelidade à Igreja Congressional e ao partido republicano não as levava à prática de princípios específicos.
            Lembro-me, sempre, que jamais deixamos de ter em casa uma moça irlandesa católica e que o Sr. Winne trabalhava na nossa horta. Contudo, eu jamais ouvi meus avós se referirem, em termos contrários, aos católicos, judeus ou democratas ou a quaisquer outras crenças religiosas ou políticas.
            Aprendi, muito cedo, a manter entendimento mútuo e respeitoso com a empregada lá de casa dos meus avós. Entre outros acordos tácitos havia, o que, de certa forma, me favorecia, pois as minhas particularidades privadas eram muito mais numerosas e mais reprováveis. Quando vovó manifestava dúvidas a respeito de assuntos do nosso comum conhecimento eu não tinha muito o que temer. Bastava uma piscadela, à mesa, e estava selado o acordo de mútua proteção.
            Quando, por acaso, eu entrei de repente na cozinha e apanhei Délia sentada no colo de Pate, seu namorado e marido em perspectiva, eu me escondi rápido, guardando comigo o trunfo, para qualquer ocasião necessária no futuro.
            Que recordações gostosas são estas! Sinto pulsar meu coração ao lembrar-me da rígida observação das pequenezas dos nossos tratados tácitos e nem mesmo conversados, quanto mais escritos! Por mais que Délia e Mary vivessem eu jamais me referia a elas lembrando-lhes obrigações dos serviços de casa. Elas se tornaram mães e avós más eu jamais as considerei empregadas. Eram membros da nossa família.
            Embora nunca tivéssemos empregados que sentassem à mesa conosco, tenho conhecimento de que esses eram, também, homens independentes, de caráter. Não trabalhavam meramente pelo salário.Faziam-no para cumprir um compromisso assumido. Peça a um empregado da Nova Inglaterra para transferir um monte de pedras de um lugar para outro e ele o fará de boa vontade. Peça-lhe que as traga de volta e ele o fará resmungando. Peça-lhe para repetir o transporte e ele o deixará falando sozinho. Para tratar com ele será necessário fazê-lo, sempre, com bom senso. Os homens da Nova Inglaterra não gostam de desperdiçar tempo, dinheiro ou energia. Talvez seja por isso que seus asilos permanecem mais ou menos vazios.
            É de supor que deveria haver um asilo, oficialmente, no nosso município mas não me lembro de haver conhecido um asilado. Os habitantes da Nova Inglaterra sempre tiveram ojeriza pela indigência e a admitem só quando ela decorre de causas inevitáveis. As leis da maioria dos Estados da Nova Inglaterra não reconhecem os direitos civis dos indigentes, provavelmente baseadas na teoria de que, incapazes de dirigir seus destinos, não poderiam, também, oferecer quaisquer contribuições ao Estado.
            Antigamente, na Nova Inglaterra, era prática comum leiloar os  serviços de indigentes. O indigente, a troco da sua manutenção, ia trabalhar para quem oferecesse por ele o maior preço. Uma certa porcentagem dos cidadãos incapazes de dirigir-se por si próprios era solicitada a trabalhar e, experimentada a sua capacidade, com boa dose de preocupação, transferida a carga, dos seus ombros para os de outros mais capacitados, caso necessário.
            Tudo saia bem quando os empregadores eram conscienciosos. Com os maus, o processo passava à escravidão. E, diga-se de passagem, os empregadores de indigentes em Nova Inglaterra nem sempre eram bons. Havia, porém, na Nova Inglaterra a repulsa pelo instituto da escravidão. Repugnava a submissão, aos homens e mulheres nascidos e criados nessa região dos U.S.A., a qual era chamada de "berço da Liberdade".
            O único caso de trabalho indigente de que eu tive conhecimento no vale era o de Nathan Remington, cujos serviços eram contratados com Alfred Hull e continuaram até as mortes deste e da esposa.
            Não havia muita mão de obra disponível aos fazendeiros. Estes, geralmente, executavam todo o serviço das suas fazendas auxiliados tão somente pela própria família. Apenas, na época da fenação, tomavam eventualmente serviço assalariado.
            Quando um cidadão necessitava alguma mão de obra, podia encontrar. Havia alguns homens mais maduros que não tinham ocupação regular e que se sentiam contentes com oportunidades de ganhar algum dinheiro.
            O Sr. Winne trabalhava sempre alegremente com vovô e Randall Nourse ajudava permanentemente o Sr. Ed. Martindale. Randall morava de graça no porão de Afonso Stafford, que o protegia. Randall pertencia à classe dos cidadãos de Wallingford que viviam, dignamente e respeitados, com uma renda muito pequena. Era a personificação da frugalidade de Vermont. O Sr. Justin Bacheller era o único cidadão que tinha um empregado efetivo. Ele era proprietário de cavalos de linhagem e John Catle era um tratador perito e dedicado e, na sua relação com o patrão, não havia traço de servilidade. Era, também, um cidadão da nossa comunidade.