CAPÍTULO XXV

A Diversão vem à Cidade

            Tínhamos distrações em Wallingford, embora não programadas previamente. De quando em quando, ia um velho franco-canadense conduzindo um urso, que, por segurança, portava uma focinheira. O homem, usando seus métodos, punha o urso a subir numa escada, a dançar e a simular uma luta que, às vezes, parecia real.
            O canadense usava um palavreado todo seu ao apresentar o espetáculo. De todo ele, só um permaneceu em minha memória. Era, "circular, senhor!?" E o urso punha-se a andar em círculos. Não, porque entendesse a ordem mas porque o homem manejava a corda que o prendia, de forma a fazê-lo andar em círculo. Nós os meninos logo o percebemos! . . .
            Mais ou menos amiúde, aparecia um mascate, que se intitulava "doutor", a vender linimento kikapoo, panacéia que afirmava vir da índia e que curava qualquer espécie de reumatismo, ao baixíssimo preço de 1 dólar. Como recurso para atrair clientela o "doutor" extraia dentes "sem dor" e gratuitamente.
            A sua carreta fechada era consultório dentário e salão da vendas. O mascate era o arquiinimigo do reumatismo e das dores de dentes e havia muitos pacientes de um ou outro desses males. A gente se admirava de ver a, fila dos pacientes aos cuidados do "doutor". Fossem quais fossem as virtudes de seu linimento, o fato é que ele sabia extrair dentes. Se o fazia sem dor, como anunciava, nunca se pôde saber. Mesmo que doesse a operação, era certo que, para a gente de Wallingford, doeria muito mais arrancar, do bolso, cincoenta centavos ou talvez um dólar do que livrar-se, sem anestesia, de um dente incomodativo!...
            Após a extração de molares, caninos e incisivos o Dr. iniciava a secção rentável do seu negócio.
Teoricamente provara sua capacidade de curar doenças. Se pudera resolver os casos dos molares, havia razões para admitir que, também, podia fazê-lo com o reumatismo.
            A venda de kikapoo era rápida e continuava por horas. Pelas louvações do "Doutor", podia toda gente crer que era uma das maiores maravilhas do mundo. Os próprios EUA estariam interessados nisso. Tinha-se de acreditar que o elixir superava a grandeza das cataratas do Niagara e o Yellowstone. Kikapoo era a maravilha! Salvava de dores a Humanidade, noite e dia sem parar. O preço de 1 dólar por vidro era irrisório: apenas permitia a continuidade da existência da maravilha... E lá se iam apreciáveis somas de dólares, duramente ganhos, e avaramente economizados!...
            Com alguma freqüência vinha, também, um menestrel negro à nossa comunidade. O negro era tão engraçado que mantinha a gente rindo durante toda uma semana.
            De tempos a tempos vinham também grupos teatrais itinerantes. Levavam "A Cabana do Pai Tomás", com toda as suas belezas e tristezas. Se não fosse Marés, com seu indefectível guarda-chuva, estaríamos consternados até hoje pelas mortes de Evinha e do tio Tom. Marés dava expansão a gargalhadas entre cada duas cenas de tristezas.
            Uma ocasião, Tom Thumb (polegar) ou outro, (que não importa) veio com bonecos anões, homens e mulheres e, num show, fê-los dançar. Como podiam, aquelas criaturinhas diminutas, dançar?!
            Quase morri de emoção, olhando a graça de uma linda bonequinha dançando. Quase todo o ano uma companhia itinerante de teatro, "A Família Feliz", nos visitava. Cada membro da família - pai, mãe, filho e filhas - tinha sua especialidade, condizente com sexo e idade. Era, um bom espetáculo, gabado por toda gente.
            Os espetáculos de Punch e Judy se realizavam, de quando em quando, e divertiam multidões, mormente rapazes, atraídos à cena, como o são moscas ao açúcar.
            Um homem e alguma traquitana faziam exibições mas as piadas, as caretas do irascível Punch e as surras que dava em Judy, eram alguma coisa de inimitável! A opera-cômica de hoje não poderia concorrer com Funch, dando pancadas na cabeça de Judy.. . Ocasionalmente, prestidigitadores, mágicos e faquires faziam exibições na praça da comunidade, em noites de verão.
            A grande expectativa do ano, mais aflitiva do que a da feira municipal de Rutland, era o dia em que havia espetáculo circense. A azáfama começava logo no começo do verão, quando as turmas avançadas faziam as cercas, abrigos e outras adaptações, som grande publicidade, em cartazes, de trapezistas, burlantins pendurados pelos cabelos, cavalos montados em pêlo, saltos mortais simples, duplos e até triplos, domadores de chicote em punho enfrentando feras ameaçadoras. Havia enormes elefantes com seus desajeitados filhotes.     Aqueles gigantes, cuja pele enrugada parecia uma roupa maior do que o corpo.
            Quando o circo de três picadeiros era esperado em Rutland, a gurizada de Wallingford economizava cada tostão, conduzia mensagens, trabalhava nos campos de feno ou em outra tarefa qualquer, que lhes proporcionasse algum dinheiro para a passagem de trem e compra de entradas no grande circo e, também, para algum pacote de amendoim, de pipoca, doces, etc ...
            Passado o dia de atividade delirante restava o cansaço à gente de Wallingford. Velhos e moços das redondezas procuravam o trem das 10:30 para, extenuados, voltarem aos seus lares, para o leito repousante.
Wallingford aparentava um balão vazio no dia seguinte ao espetáculo do circo. E, na verdade, a atividade na terra demorava, ainda, uns dias para recomeçar. Mas mesmo então, havia barras fixas por trás dos celeiros, trapézios nos galhos das árvores e colchões de feno para treino de acrobacias. As ocorrências de fraturas e esfoladuras aumentavam consideravelmente!
            A feira de Rutland era, e ainda é, extraordinária. Atração para gente de todos os lados. A variedade de eventos fornecia aos esportistas a sensação procurada. Havia disputas de cavalos de trote dirigidos pelos seus donos, beisebol, competições de atletismo, incluindo carros de bombeiros, de diversas cidades, com suas equipes. Essas corridas dos bombeiros voluntários eram espetaculares. Os prêmios, altos que eram, iam para os que, no menor tempo, percorressem a distância combinada e se aprestassem para apagar o incêndio imaginário. A competição se revestia de tanto interesse que, secretamente, contratavam-se homens rápidos e hábeis de outras cidades para, com nomes supostos, figurarem nas equipes. Todas as cidades de alguma importância tinham sua organização de combate aos incêndios. A prática dos figurantes estimulava o amor próprio e o orgulho cívico dos cidadãos, a ponto de oferecerem auxílio financeiro para "enxertos" nos seus grupos e, assim, vencerem as competições.
            Os espetáculos da terra, em geral, constavam de subida de balões, desfiles de realejos, bandas de tambores e competições rítmicas, que faziam disparar os corações femininos.
            No entanto, a feira de Rutland era o que se propunha ser: uma exposição agro-pecuária, onde era exibido o que havia de melhor sobre cavalos, gado, ovinos e porcos, como, também, maçãs, perus, abóboras, requeijão, e as duas variedades de queijo fabricado em Vermont.
            Jamais pude separar, na memória, a feira de Rutland das presenças de Charles Harris, sua esposa e filha Lib, vindos, de Bratleboro, na carruagem puxada por uma égua velha. A feira era a grande ocasião para o tio Charles. Ele a assistia em todos os pormenores e fazia interessantes comentários sobre os eventos, quando, à mesa, nos sentávamos para o jantar.
            O parentesco real de tio Charles conosco eu não sei bem qual era mas devia ser distante. Ele sempre chamava vovô de tio Howard e asseverava com firmeza : a continuidade das suas visitas anuais, de duas semanas, enquanto vovô fosse vivo. Para vovó e, acho  que para vovô, também, aquela promessa de tio Charles era, em verdade, uma ameaça.
            Tio Charles mantinha uma longa barba e, enquanto nos visitava, usava um casaco a príncipe Albert e uma cartola chaminé. Se ele se vestia para parecer o convencional tio Sam, fazia-o com perfeição.
Tio Charles deve ter desejado família numerosa. Aliás ele a tinha. Catorze filhos homens e, afinal, em resposta às suas orações, uma filha, Lib.
            Lib podia  ser o que fosse para outros. Para o tio Charles, era a glória. Depois do seu nascimento a fonte secou. Ninguém pode imaginar o que teria acontecido se Lib não houvesse nascido. Imagino que continuariam a vir varões, até que ela se decidisse nascer, pois quando os vermontenses põem um propósito na cabeça, não desistem até obtê-lo.
            Depois que a última garfada de feno havia sido recolhida no depósito, no outono, o focinho da velha égua virava na direção de Wallingford, a 60 milhas, e a peregrinação anual começava. Ninguém sabia melhor o percurso que a velha égua. Ela conhecia cada curva da estrada e jamais levantava a cabeça, a não ser quando chegava a frente do portão da nossa casa, ao cair da noite. Quando a ruído de abrir o portão chegava aos ouvidos de vovó, ela dava um suspiro e clamava: "Meu Deus! Charles Harris está aí!"
            Para tio Charles a visita era o acontecimento do ano. Suas férias dos deveres da fazenda! Festa prá ele! Sua conduta esfuziante invadia a casa e a cidade toda. Ninguém ignorava que tio Charles chegara.
No dia determinado por tio Charles, para o final da visita, a égua velha era atrelada, ao clarear do dia, as despedidas feitas e lá se iam, tio Charles, a esposa, Lib, a égua velha e a velha carruagem.
            Era eu quem, de costume, abria o portão e os via sumir, na esquina da escola, acenando com meu chapéu. Tio Charles, chicote na mão, cartola firme na careça e olhar determinado em frente... Até o ano que vem, tio Charles!