CAPÍTULO XXVI
Dr. George
Embora a minha vida, no vale, fosse voltada às aventuras e travessuras,
eu tive fases de seriedade. Era-me difícil, distinguir o certo do
errado: muitas coisas que o povo, em geral, achava muito erradas, pareciam-me
praticamente normais.
Eu tinha minha própria teoria sobre o certo e o errado que escandalizaria
o ministro se ele a conhecesse. Eu, por certo, não permaneceria
nesse dilema se o povo de Wallingford se dividisse em bons e maus. Se todos
os bons fossem membros da igreja e nenhum dos maus o fosse, a solução
do dilema teria sido simples! Mas as coisas eram muito mais complexas.
De um lado estava a velha senhora Page, uma santa autêntica.
Era sina sua suportar imprecações e maus tratos do marido,
irascível capitão Page, muito além dos limites. Manifestamente
ela se amparava numa sublime fé. Eu a via freqüentemente passar
curvada, em direção à igreja. Um beatífico
sorriso iluminava sua face pálida. Se ela fosse tomada como padrão
dos membros da igreja e o velho capitão como o verdadeiro representante
dos hereges, a solução para o meu problema teria sido fácil.
As pessoas bem intencionadas estariam catalogadas como religiosas.
Infelizmente, para minha confusão, aquelas duas criaturas não
eram padrões nas suas respectivas classes. Havia muito de bom numa
e muito de ruim na outra, independentemente de pertencerem à igreja.
Embora a fé do juiz Button não lhe exigisse alternativas
de elevação e sofrimento como a de Mrs. Page, ele mantinha
uma existência regular em todas as emergências. O juiz era
um dos bons de Wallingford. Ajudava a manter a igreja mas dela não
fazia parte. Ninguém lhe perguntava porque, e, decerto, seria difícil
encarar tal assunto com ele.
Fay Stafford e eu, logo que crescemos, éramos, freqüentemente,
chamados a carregar a cruz nos funerais das crianças. Presume-se
que achavam próprio que jovens enterrassem jovens. Possivelmente
a dor dois pais pudesse ser diminuída pela presença de jovens
no sepultamento.
Nós levávamos a tarefa a sério e, certa vez, contamos
com a gratidão do Sr. John D. Miller, um sofrido pai, que nos emprestava
livros, e nos saudava, sempre com muita simpatia por havermos forrado o
esquife do seu único filho com galhos verdes, para que ele não
perecesse tanto frio, indo para o seio da terra coberta de neve, no seu
descanso eterno.
Um por um de nós caímos com as doenças da infância:
sarampo, catapora e escarlatina. Tínhamos três doutores velhos
na aldeia. Os doutores da Nova Inglaterra pertenciam a duas escolas distintas:
alopatas e homeopatas. Aos homeopatas os alopatas pareciam ridículos.
Administrar doses de remédio tão pequenas que cabiam na ponta
de uma faca era praticar feitiçaria, para os alopatas. Escolher
a escola de tratamento seria como preferir o bem estar à desgraça.
Era como escolher religião. Uma vez batista, sempre batista. Uma
vez alopata, sempre alopata.
Nós éramos ferrenhos alopatas e tínhamos um médico
para a família, o Dr. George Fox, de Rutland. Era o marido de tia
Mellié, irmã de meu pai. Era chamado "Dr. George", irmão
do "Dr. Bill", que morava e clinicava em Wallingford. Ambos filhos do Dr.
John, que morreu antes de eu vir a Wallingford, e netos de William Fox,
fazendeiro que mudou-se de Dorset para Wallingford. William comprara uma
fazenda ao lado de uma grande lagoa. Nenhuma das partes do negócio
fez mencionar a lagoa mas ela ficou de propriedade de William. O preço:
um barril de gin. O nome da lagoa: Lagoa da Raposa, hoje lago Elfin, cujos
freqüentadores atuais acordam em que o preço da compra foi
não muito alto.
Os doutores Bill e John não eram detentores da clientela total de
Wallingford. O Dr. Hitt e o Dr. Noble participavam dela. Os doutores Bill,
Hitt e Noble, cada um com os seus quase cem quilos, eram vistos circulando
pelas ruas e estradas de Wallingford nas suas carruagens.
Gozávamos de tranqüilidade, tendo um médico na família.
Certa noite senti-me muito mal. De repente, o quarto parecia estar girando.
A próxima visão que tive foi a de estar numa cama improvisada
na sala de estar, perto da lareira. Tio George examinava ansiosamente os
meus olhos. Ele e seu fiel Billy tinham enfrentado a neve para vir em meu
socorro. Tio George e Billy eram uma parelha inseparável, conhecida
por toda a redondeza. Não tenho dúvidas que Billy sentia
responsabilidade quando lhe punham os arreios, de noite ou de dia, e solicitavam-lhe
enfrentar as mais severas tempestades de neve.
A clientela do Dr. George cresceu e foi necessário outro cavalo
para ajudar Billy. Foi então que entrou em cena a Fanny. Ambos,
de inicio, rivalizavam-se mas, dentro em pouco, tornaram-se amigos, pois
Billy sempre saudava Fanny com um relincho, quando ouvia o ruído
da sua chegada ao pátio. Tio George mantinha cavalariço para
tratar os animais e acompanhá-lo à noite mas isso não
durou muito.
Para os doentes, a chegada do baio Billy ou da alazã Fanny conduzindo
o Dr. George, de barba grisalha, era como receber um atestado de saúde.
As suas visitas à nossa casa eram gratuitas, o que, para tio George,
não as diferenciava das pagas. Para algum outro tio talvez pudesse
significar algum peso o atender alguém, acolhido por seus sogros
mas para tio George, não. Ele me atendia como se eu fosse filho
de vovô. A sua perícia e desvelo puseram-me em pé rapidamente.
Outras doenças me atacaram, já que nunca fui uma criança
muito robusta mas as providências e cuidados dos meus avós
me punham, sempre sadio.
Anos após, pude conhecei Billy muito melhor. De visita a Rutland,
num inverno, tive uma experiência que jamais esqueci. Foi oportunidade
para eu tomar conhecimento das reais relações de entendimento
e dependência entre o tio George e o seu cavalo Billy.
Tio George recebeu um chamado telefônico de um paciente em Menden,
já entrado na noite. Enquanto se preparava para sair notou o meu
interesse e, para minha alegria, convidou-me: "Quer ir comigo, Paul?"
A noite estava fria e sem lua. Assim, agasalharam-me bem para que
não me resfriasse. A nevada, de princípio leve, aumentou
rapidamente tão logo iniciamos a viagem. As pedras-sabão
aquecidas, aos nossos pés, mais as mantas de búfalos, em
que nos envolvemos, faziam-nos sentir confortáveis. Quando nos aproximávamos
da serra, a neve aumentou a ponto de quase não se poder enxergar
a poucos metros à frente. Billy ia devagar. O percurso era longo
e era bom economizar energias. Ao atingirmos o sopé da serra a tempestade
tomou proporções assustadoras. Eu achava que tio George estava
assustado, embora ele não o demonstrasse. Não se podia ver
a estrada depois que saímos da principal.
Billy parava e avançava. Tio George saltou do trenó, foi
até a cabeça de Billy e retirou-lhe da cabeçada as
rédeas, para permitir-lhe o pleno uso das suas aptidões.
Billy demonstrou satisfação, quando tio George, batendo de
leve, afagou-lhe o pescoço: virou o focinho e o esfregou no braço
de titio. Não sei como fomos até o ponto em que foi possível
divisar as luzes da casa. Quando chegamos, um homem, com uma lanterna,
guiou-nos até uma cobertura onde Billy ficou protegido, limpo da
neve e onde encontrou uma boa ração.
Depois que tio George terminou seus deveres profissionais e acalmou os
donos da casa, retiramos Billy do abrigo e iniciamos a volta prá
casa. Quando me pareceu razoável, perguntei a tio George como é
que acharíamos o caminho para alcançar a estrada principal
e ele respondeu:
"Não sei, Paul. Não enxergo nada, como você. Essa é
tarefa de Billy. Eu confio nele, pois jamais falhou, mesmo em lugares mais
difíceis. Billy é todo coração e instinto.
Por isso o escolhi para esta visita. Ele não é tão
vigoroso como Fanny mas é todo cuidados e atenção
em oportunidades como esta. Ele nos levará seguros, de volta!"
A partir de então minha estima por Billy subiu ao mais alto nível.
Só não ultrapassou a que dediquei à nossa Buttercup.