CAPITULO XXVIII

Uma Comunidade Laboriosa

            O meu vale era auto-suficiente nos tempos da minha infância. As terras ao longo do rio eram férteis e as fraldas das montanhas circunjacentes ofereciam excelentes condições de pastagem. As pequenas indústrias baseavam-se na extração da madeira nativa, como matéria prima. Também a loja de ferragens achava, ali, o material apropriado para os cabos das ferramentas.
            A indústria de trenós encontrava os paus-d'óleo brancos, que também eram usados no fabrica de algumas peças de carros. Afinal as madeiras para todos os fins existiam ali. Até para a fabricação de gamelas, muito usadas pelas donas de casa.
            O velho Pratt, de uma só perna, fabricante de esquifes; o carpinteiro, o tanoeiro encontravam, abundantes, as madeiras mais próprias para os seus misteres. Havia, ainda, os melhores mármores e granitos do mundo, no alto das montanhas.
            Existira, há tempos atrás, uma olaria como também uma chapelaria e um forno de cal.
            Eu era menino, quando foi instalada uma fábrica de ferramentas, pelo Senhor Batcheller, que era dirigida pelos seus três filhos e um genro. O mais velho dos filhos vendeu a sua participação aos irmãos e associou-se  com uma empresa concorrente. Quebrou-se. Os irmãos permaneceram prosperando, confirmando a fábula da resistência dos gravetos quando num feixe. A empresa Batcheller empregava cem ou mais pessoas e as relações patrão-empregados eram notavelmente avançadas e sábias.
            Os Batchallers eram aristocratas na sua maneira de viver mas extremamente democratas na conduta da empresa. Era uso, naquele tempo, (como o é ainda hoje) reservar-se as tarefas mais fáceis e leves aos filhos, netos e parentes dos proprietários. Os Batchellers não se faziam exceção. À medida que seus filhos aproveitassem os privilégios oferecidos, de aperfeiçoamento técnico nos campos que escolhiam, eram colocados na fábrica mas só até aí iam os privilégios. A partir de então, os progressos dependiam exclusivamente dos méritos que demonstrassem.
            Não me lembro jamais, de algum parente dos proprietários colocado, de imediato, em posições de direção ou autoridade. Eles iam para as mesmas tarefas dos empregados, recebendo salários iguais.
Nunca houve greve naquela firma. Os empregados não tinham organização classista mas eu duvido que fosse possível alguém desenvolver esse tipo de liderança naquela empresa. O espírito democrático e justo e a harmonia ali existente eram obstáculo intransponível. Todos ali eram amigos a despeito dos desníveis de qualquer natureza porventura existentes. Aquele regime, estou certo, renderia resultados maravilhosos ainda hoje.
            Muito mais tarde os Batchellers foram absorvidos pela "American Fork and Hoe Company" de Cleveland, firma de âmbito nacional, com recursos maiores que os Batchellers. Assim, Wallingford não perdeu nada. Pelo contrário, lucrou com a incorporação. O gerente fixou-se na cidade, havendo adquirido a propriedade onde eu vivera quando menino, e o seu interesse pelo desenvolvimento da fábrica contribuiu bastante para a melhoria da cidade.
            A sua mais importante contribuição urbana, foi a construção da linda hospedaria Nova Inglaterra, no mesmo lugar do velho hotel de Wallingford. A firma obteve largo prestígio pela excelência dos seus produtos e a sua marca era a preferida nas ferramentas agrícolas, nos bastões de golf, equipamentos para pescaria, esquis, tobogãs, patins, etc. A hospedaria que construíra ficava muito próxima, ao sul da casa da minha infância.
Ela fez de Wallingford atração de primeira classe para as diversões de verão. Quem viajasse de automóvel através da Nova Inglaterra, pararia, por certo, naquele estabelecimento de muita ordem. Há muita coisa interessante para ser vista, ali.
            Homens de grande valor têm saído de Nova Inglaterra para exercer papéis destacados no mundo. O solo de Vermont é mais fraco do que o das fazendas do oeste e, talvez, por exigir mais de sua gente, tem desenvolvido o valor dos seus homens.
            Temperados pelas dificuldades impostas pelo solo rochoso e disciplinados pelo rigor do clima, é-lhes mais leve e fácil o desempenho em condições mais favoráveis. É notória a observação de que, proporcionalmente à sua população, Vermont tem maior presença que qualquer outro Estado da Federação nas listas do "Quem é Quem".
            Wallingford é uma contribuinte de Vermont, em homens destacados. J. T. Trowbirdge, escritor de histórias para crianças, viveu ali por alguns anos. Phil Emerson tornou-se juiz federal em Utah. Jeff Southerland, um advogado de Chicago, foi, por anos,  assistente da prefeitura em  Wallingford. Aldate Walker Jr. foi dirigente da Comissão Interestadual de Comércio; Nate Rounds tornou-se o gerente de uma grande firma comercial. Birney Batcheller, que morava em frente da nossa casa, foi o inventor do tubo pneumático para distribuição de correspondência nas grandes cidades. Filadélfia é uma delas. Foi ainda inventor de outros engenhos; escritor, poeta e cientista. Escreveu a história genuína de  Vallingford. Por Birney, com quem não convivi como amigo devido a ser muito mais velho que eu, tive grande admiração pelos seus experimentos no terreno da mecânica.
            A lista dos notáveis da minha cidade não estaria completa  sem o nome de Will Coleman, oriundo da zona de terras mais sáfaras das redondezas. Apelidamo-lo de Hartoboro por que esse era o nome da povoação em que ele morava. Se é verdade que as ovelhas de Vermont tem o faro tão apurado que conseguem sobreviver com o raríssimo material que há entre as pedras das montanhas, por certo essa qualidade elas teriam desenvolvido em Hartoboro .
            Nem mesmo, escola Harteboro tinha. As crianças dali vinham à de Wallingford. As sete ou oito milhas que percorriam, diariamente, a pé davam-lhe um tão grande apetite de aprender como de comer o farnel que traziam.
            John Gainey e Will Coleman sempre vinham juntos e eram quase irreconhecíveis quando, no inverno, se agasalhavam para cruzar caminhos das montanhas geladas. Ambos estavam colocados, entre os primeiros da classe. Graduados, John voltou à fazenda mas Will lançou-se nos negócios.
            A iniciação usual no campo dos negócios era, em Wallingford;   emprego numa das suas lojas. Depois, maior desenvoltura numa loja maior, em Rutland. Provada, aí, capacidade, continuaria, indo para Troy, Albany, New York e Boston. Will não seguiu essa  escala. Procurou, de inicio, colocação numa firma importante em  Boston. Economizara o dinheiro suficiente para a viagem de 257 km e a hospedagem por alguns dias numa pensão barata e lançou-se. Por sorte sua, foi procurar emprego na maior fábrica do  mundo em maquinário para sapatarias. Após alguns empecilhos conseguiu entrevista com o presidente da Companhia. Este, impressionou-se com o desembaraço e a atitude resoluta do moço.
            Perguntou-lhe, afinal, o quanto pretendia ganhar.
             "Quinze dólares, e eu os mereço", foi a resposta.
            O homem contestou dizendo que Boston estava, repleta de moços experientes, dispostos a trabalhar por quatro dólares por semana.
            Eis a resposta de Will, que ficou célebre nos anais da grande indústria.
            "O meu preço é quinze dólares. Não trabalho por menos. Mas eu trabalho de fato. Dê-me o emprego e, se ao fim de uma semana, o senhor achar que está perdendo dinheiro com o meu salário, não precisa pagar-me nada".
            Obteve o emprego. O único que precisou pedir. Todos os outros, daí por diante, foram-lhe dados pela própria firma. O último foi o de gerente geral do escritório de vendas, na Europa, localizado em Paris.
Essa história sobre Will me foi contada por um empregado da Companhia que sabia ter eu sido seu colega de escola.
            Mais tarde testei a verdade com o próprio Will, numa ocasião que nos encontramos em Vermont.
Eu, que o conheci menino e homem, classifico-o como a figura padrão do que de melhor há na Nova Inglaterra.
Alguns dos que tentaram a vida fora da nossa aldeia fracassaram e voltaram em piores condições do que as que tinham ao sair. Mas mesmo os de sucesso humilde tinham histórias bonitas a contar do que lhes acontecera em terras estranhas e tinham audiência para elas, normalmente na área juvenil.
            Entre os que não mais voltaram está Hiram Chapin. Foi surpresa geral quando se soube das tendências aventureiras de Hi. Sua saída foi muito comentada. Mas quando reapareceu, não há língua que descreva o sucesso. Veio montado num cavalo lindo, trazendo pela frente uma tropilha de cavalos xucros. Veio vestido à maneira dos homens do oeste; com um chapéu de largas abas e de lenço colorido no pescoço, fazendo uma pose que era de se ver. Nós os meninos, nos orgulhávamos dele, que despertou o nosso entusiasmo com o oeste.
            Alguns de nós, que estávamos para ser soldadas, marinheiros ou acrobatas de circo, mudamos de plano e passamos a sonhar com o sermos cow-boys. Se um bocó como Hiram Chapin, em seis meses, podia transformar-se naquela figura admirável, o que se podia esperar de uma rapaziada de sangue quente, como nós!?