CAPÍTULO XXIX
A Morte do Vovô
Após graduado na escola secundária de Wallingford, dispuz-me
a continuar estudando. Vovô aprovou a minha resolução,
dispondo-se a suportá-la financeiramente. Nunca pude compreender
a confiança que depositava em mim, já que eu jamais lhe dava
razões que a justificassem.
Talvez o senhor Jereme Hilliard ou qualquer outra pessoa representativa
tenha querido aconselhar vovô a respeito, mas vovô não
pediria conselhos a ninguém. O povo bom de Wallingford achava que
vovô estava investindo num azarão. Afinal, ninguém
tinha nada a ver com isso, se era o que ele queria.
Vovô acreditava firmemente na educação, mas o máximo
que podia dizer de mim é que eu era um curioso notável.
De uma coisa estou irremovivelmente certo: eu adorava meu avô e ele,
talvez, o percebesse. Não obstante as minhas repetidas más
condutas, não me lembro de haver percebido nele sinais de aborrecimento.
E estou certo de que ele se enternecia com a minha solidariedade, quando
eu me atirava no seu colo e o acariciava ao vê-lo sentado ao lado
do fogão, curtindo suas preocupações amarguras.
A fé dos meus avós em mim foi posta à prova de maneira
crescente nos anos que se seguiram.
Minha passagem pelas academias de Black River, a Militar de Vermont e pelas
Universidades de Vermont e Princeton deixou muito a desejar. A ordenação
normal dos currículos tinha nenhuma importância para mim.
A literatura, a filosofia, a história, as humanidades e as ciências
sociais, essas, sim, teriam. Sofri, pois as conseqüências das
minhas atividades curriculares fortemente temperadas com insubordinação.
Algumas personalidades daqueles estabelecimentos ficaram gravadas
em minha mente: o maior Spooner, da Academia Militar de Vermont, o professor
Petty, da Universidade de Vermont e, acima de todos, o doutor James McCosh,
presidente da Universida de Princeton. Tive o privilégio de estudar
lógica e psicologia com esse famoso educador das Universidades de
Edimburgo, Glasgow e Belfast. "Jimmie" era adorado por todos e, para mim,
se sobrepunha, ainda, o fato de eu achá-lo parecido com vovô,
tanto no aspecto físico quanto no modo de agir. Apenas era mais
curvado, por estar sempre debruçado sobre os livros. Mas tinha o
mesmo nariz aquilino e os mesmos cabelos prateados.
No meu primeiro dia em Princeton fui levado à casa do venerável
presidente pelo professor Huss. O presidente McCoch estendeu a mão,
sem levantar-se, e perguntou-me:
"Veio aqui para uma temporada boa?"
Um tanto perturbado com a pergunta singular, ainda tive presença
de espírito para responder:
"Não, senhor Presidente. Vim para estudar".
Ele apertou-me a mão e disse:
"Ah! Isso é bom, meu rapaz!"'
Num dia particularmente frio, de inverno, recebi um telegrama de tio George
nestes termos: "Venha urgente se quiser ver seu avô ainda vivo".
Eu sabia da exatidão das palavras de tio George.
Tomei o primeiro trem para New York e aí fiz baldeação
para o do norte. O panorama era-me sombrio. Enquanto
o trem vencia a subida ao nosso vale, eu vislumbrava, com justificada e
profunda dor, o desfilar dos funerais de vovô. Estava anoitecendo
quando chegamos a Wallingford. Só havia uma pessoa na estação.
Era um menino chamado Preston. Fui direto a ele e perguntei
"Bert, você sabe como está vovô?"
Ele gaguejou e respondeu:
"Sinto muito dizer-lhe. Seu avô morreu".
O restante sobre a doença e a morte de vovô eu soube per vovó
e outras pessoas presentes. Meu espírito se recusava a acreditar
naquela fatalidade mas era verdade.
Aquele foi o inverno mais rigoroso que se conheceu, até então,
na região. O North River gelou completamente e houve quem o atravessasse
sobre o gelo para acreditar. A neve amontoou-se até os beirais das
casas e o tráfico parou por muitos dias. Quem não abastecera
a despensa passou fome. Mas na casa de vovô não faltou alimento.
Vovô, com certeza deve ter tido muito trabalho para conservar, à
frente do portão, o passeio, defronte de casa, livre da neve acumulada.
As tempestades de neve foram sempre um desafio para ele. Ele não
admitia que qualquer vizinho tivesse mais perfeita a remoção
de neve. Antes do clarear do dia, enquanto jovens e velhos ainda dormiam,
já era ouvido o ruído do raspar a neve: ao redor da casa
de vovô. O "Snow Bound" de Whittier foi, de muito, sobrepujado e
os que julgaram aquela obra prima uma fantasia ou um exagero devem corrigir
esse conceito. Vovô deve ter trabalhado excessivamente, naquele ano,
para conservar o terreiro, na frente do portão e a calçada
ao redor da casa livres da neve acumulada. Mas ninguém sabia melhor
que ele que a neve voltava sempre a desafiá-lo acumulando-se novamente.
A impiedade da natureza parece que ofereceu-lhe a motivação
de um novo esporte, nenhum dos' vizinhos o bateria na luta contra o acúmulo
de neve! Muito antes de o dia clarear, enquanto o pessoal, da cidade ainda
dormi, ou pensava nas tarefas a enfrentar, já estava ele no seu
afã pertinaz, contra a neve.
Vovó se preocupava com aquela obstinação de vovô
mas isso não o demovia. O mais que ela conseguia era fazê-lo
agasalhar-se convenientemente. De quando em quando, ela vinha ver o progresso
do trabalho do marido.
Lembro-me que vovó falava a respeito disso a tio George. Ele ouvia
com paciência e respondia:
"O limpador de neve de "Pa" é o seu próprio remédio,
não, é?”
"Parece que é!” . . .
E vovô continuava na sua faina.
Que, sua vida pudesse durar mais ou menos dias, ninguém, nem mesmo
tio George, amigo e médico que era, o convenceria a permanecer sentado
atrás do fogão, se lá fora a tempestade estivesse
rugindo.
Mas eu não disputaria com meu avô o privilégio de raspar
a neve da calçada. Eu sabia intuitivamente, como tio George e vovó,
que vovô jamais teria tranqüilo o seu cochilar na cadeira de
braços, sem haver, de manhã, executado a tarefa que se impunha.
Ele delegara a lida com seus cavalos e vacas e os trabalhos mais pesados
da lavoura, a feitura e o depósito de feno, mas aquilo que ele considerava
dever doméstico era só dele. Ninguém mais o poderia
executar.
Na verdade ele não falava dessas coisas e nem era necessário
que o fizesse. Quando calçava as botas, recolhia nela as calças,
agasalhava-se convenientemente, inclusive calçando as meias-luvas
(mitenes) e saia a apanhar a pá para neve, qualquer pessoa entenderia
que a neve iria ser removida... e por ele.
A pá para a neve de vovô era, pra mim, um símbolo de
coragem e resolução. Como brasão de família,
ela lembraria sempre o dever de realização pronta das próprias
tarefas.
Depois que cheguei em casa eu soube que vovô apanhara um resfriado
que progrediu rapidamente. Foi dormir a hora de costume mas, pela manhã
não acordou e vovó viu que ele respirava com dificuldade.
Pela primeira vez, em sessenta anos de casada, vovó levantou-se,
acendeu a luz e chamou a empregada para fazer o fogo. Iluminou o ambiente
e vovô continuava a dormir. Não suportando mais a preocupação,
tão logo o dia começou a surgir, chamou tio George que veio
imediatamente para Wallingford.
Tanto Billy como Fanny (os dois animais que puchavam a carruagem
de "tio George") já conheciam se era urgente o caso que tio George
atenderia e jamais se negaram ao esforço pra maior rapidez de atendimento.
Chegando, demorou-se apenas para desvestir o sobretudo, e descalçar
as galochas, após cumprimentar vovó.
Examinou o doente.
"Está com pneumonia", afirmou, em seguida. "Espero que a sua constituição
o ajude a sair dessa: a crise virá esta noite. Vamos ver o que podemos
fazer".
A preocupação de vovó espalhou-se pela vizinhança
que, solícita, ofereceu toda a sorte de solidariedade, demonstrando
a estima que ambos as velhinhos lhe inspiravam. Tia Hib chegou, inesperadamente,
durante a tarde. Tio George teve que sair para atender um chamado em Rutland.
Mais tarde tio George voltou trazendo tia Mellie. Examinou novamente o
doente e voltou à sala de jantar sentando-se, com ar profundamente
compungido, para conversar. Um pouco mais tarde telegrafaria a papai, mamãe
e outros parentes mais próximos, que vieram imediatamente. É
uma benção ter assistência, nessas ocasiões,
de parentes e bons vizinhos. Eles proporcionaram grande conforto a vovó,
quando ela compreendeu que teria de separar-se do companheiro de sessenta
anos de plena solidariedade, respeito e estima.
Vovô não readquiriu mais consciência. Seu velho coração
dentro em pouco, cessou de bater. Deixou de existir um grande esposo, pai
e avô e a Nova Inglaterra perdeu um cidadão exemplar.
Veio de Rutland o agente funerário, que removeu o corpo para a sala
norte, que jamais eu vira aberta.
Quando eu cheguei já vovô estava ali, inerte. O cômodo
estava gélido até a hora dos funerais, apesar de estarem
as estufas da sala de estar e da cozinha plenamente acesas.
Embora vovó nunca tivesse se mostrado pessoa de expediente,
assumiu todas as atitudes necessárias e as suas ordens e vontades
foram respeitosamente cumpridas.
Os serviços do funeral foram simples. Não havia mais flores,
além dos gerânios cultivados em vasos nas soleiras das janelas
da cozinha e da sala de jantar. O ministro, em pé, na porta que
comunicava as duas salas, falava apreciativamente sobre a vida de vovô,
as figuras do coro da Igreja Harlan Strong, o tenor, Cal Hilliard,
soprano e sua irmã viúva, Mellie Cleghorn, contralto cantaram
sem acompanhamento, "Lead Kindly Light" e outros hinos.
Embora dois filhos e muitos netos estivessem presentes, vovó fez-me
sentar ao seu lado no assento traseiro da primeira carruagem após
a fúnebre, até o cemitério e, amparada no meu braço
fomos até onde, no túmulo da família, fora removida
a neve e cavada a sepultura. O túmulo da família estava limitado
por uma grade de ferro com o nome "Howard Harris" na porta.
Vovó manteve-se com a maior fortaleza durante o tempo
todo do funeral.
Parece-me que foi por sugestão de minha mãe que se fizesse
a leitura do testamento de vovô e o escolhido para isso fui eu.
O testamento determinava a divisão do espólio em três
partes: um terço integral para tia Mellie, um terço para
vovó a fim de que dispusesse, como fosse de seu desejo, incluindo
provisões, se assim o quisesse, para continuidade dos meus estudos.
O outro terço entregue à administração de tio
George para que a renda fosse de papai, enquanto ele vivesse.
O testamento foi uma surpresa geral. O pessoal conhecido pensava que vovô
teria me posto em igualdade com tia Mellie e papai. O único que
se mostrou injustiçado foi papai, que protestou junto a curadoria,
dizendo-se suficientemente capaz de administrar os seus bens e voltou-se,
ferozmente, contra tio George. Tio George desagradou-se do legado, mas
resolveu levá-lo até onde lhe fosse possível, o que,
aliás, não foi por muito tempo. Nos seus últimos tempos
de vida, no intento de defender-se contra as acusações de
papai, ele mostrou-me os livros de registro e tentou explicar-me as rendas.
Neguei-me a examinar os livros e a ouvir explicação. Um dos
homens mais honestos e conscienciosos que conheci foi tio George.
A humilhação de ser considerado incompetente para administrar
seus próprios bens feriu papai profundamente. Vovô sentiu
que isso ocorreria e, por isso, muitas vezes suspirava na sua cadeira de
braços ao lado da lareira, nos últimos tempos de sua vida.