CAPÍTULO XXXIV

Rotary Começa a Expandir-se

            O idealizador do primeiro R.C. percebera, desde o início que, por si só, o objetivo do clube tinha campo extremamente limitado. Ele ansiava por expandir esse objetivo para fora dos quadros do clube e criar clubes congêneres em outras cidades.
            Rotarianos e não rotarianos podem pensar, que a expansão de Rotary de cidade a cidade e de país a país aconteceu, sem que houvesse um árduo trabalho de propagação dos seus ideais. No entretanto, isso se deu em virtude de um labor planejado e laboriosamente executado.
            A extraordinária força de união de Rotary pode ser simbolizada pelo fato de que a amizade era o que ligava os companheiros do R.C. de Chicago. A minha, pelos demais companheiros, permaneceu intocada, apesar de o significado de Rotary, para mim, ter sido muito diverso do que era e até agora é para muitos deles.
O "São Thomé", incréu estava, sempre, a postos. Só havia um recurso para quebrar-lhe a descrença: realizar o que ele teimava achar impossível. Ou seja, fundar clubes congêneres em outras cidades.
            Era, para mim, quase uma frustração, o fato de que a maioria dos meus companheiros concebia, como um sonho fantástico a expansão do movimento rotário através do mundo. Nada é mais desconcertante que o olhar frio e o ar de mofa de amigos, de quem se espera apoio e colaboração. Compreendi, desde logo, que eu próprio, com minha ação pessoal, teria que provar a exeqüibilidade do meu ideal. Pus-me, pois, ao trabalho de tentar implantar Rotary em outras cidades do país. O meio único disponível era-me a correspondência. Os alvos foram os meus colegas dos bancos universitários de Vermont, Princeton e Iowa e os amigos e relações que fiz, durante os cinco anos de peregrinação aventureira, antes de fixar-me em Chicago.
            Foi um período longo de dolorosa expectativa. Sofri desesperanças amargas, alternadas por fases de vibração e otimismo sem, contudo, poder abandonar o meu trabalho de firmar-me na profissão.
            Três longos anos se passaram para que surgisse o primeiro resultado positivo. Custou, mas encontrei em Manuel Munhoz o portador eficiente da mensagem de Rotary a São Francisco da Califórnia. Ele fora meu companheiro de quarto no "Del Prado Hotel" em Chicago e se impregnara das minhas idéias.
            Durante uma viagem de negócios a São Francisco, que estava em reconstrução, após o terremoto e os incêndios conseqüentes, Munhoz fez com que o advogado Homer Wood se correspondesse comigo. Resultado: em novembro de 1908 surgia o 2º R.C. Logo em seguida, os diligentes sanfrancisquenses levaram Oakland a fundar o 3º R.C. Logo após, o 4º em Seattle e o 5º em Los Angeles. Depois New York, Boston e outras cidades aderiram ao movimento.
            Os adeptos de São Thomé convenceram-se e passaram a colaborar no trabalho de expansão. E, assim, continuou acontecendo de cidade a cidade, de país a país. Os meus cinco anos de peregrinação voluntária continuariam a dar bons frutos.
            Se a minha liderança houvesse sido dirigida com maior habilidade, ou meus planos mais firmes e previamente estabelecidos, eu teria tido, por certo, maior colaboração dos companheiros de Chicago, e andado mais depressa. Na verdade, a minha concepção de Rotary desenvolveu-se num processo contínuo e, de quando em quando, quase revolucionário. Eu concebera a doutrina amparada num companheirismo espontâneo. Pregara plena liberdade e plena despreocupação; concebera risos e canções. Os meus companheiros acorreram, sequiosos àquele conceito. Agora as coisas já não eram tão luminosas. E nesse dilema me pareceu mais fácil organizar clubes com novas intenções do que reprogramar os antigos sócios. Nosso sucesso nos Estados Unidos animou-nos a cruzar fronteira e ir ao Canadá. Após duas tentativas infrutíferas, conseguimos o homem certo e foi organizado o primeiro clube fora dos Estados Unidos, em Winnipeg, no Canadá. Outras cidades canadenses a seguiram.
            Animados com o sucesso, pensamos chegar à Inglaterra e fomos a Londres. Meu amigo Arthur Frederick Sheldon iria visitar sua representante naquela metrópole. O rotariano Harvey C. Wheeller, de Boston, tinha uma filial do seu negócio em Londres. Foi fácil para Sheldon interessar seu representante e, amparado, com a cooperação de Wheeller, foi organizado o R.C. de Londres. Wheeller foi o seu presidente. Há, agora, setenta excelentes R.C. na grande Londres e o número de rotarianos naquela cidade é o maior de todas as grandes cidades do mundo.
            Vencida a fundação do R.C. de Londres, Sheldon e Wheeller, foram a Manchester e lá, também implantaram o Rotary. Eu estava vibrando de alegria com aquela façanha de criar dois clubes na Europa, quando o secretário Chesley Perry e eu soubemos que Stuart Marreco, um irlandês que conhecera Rotary viajando nos Estados Unidos, tinha, de regresso a Dublin, organizado ali um R.C. Daí, ele se deslocara para Belfast. Ocioso é dizer que entramos em contato com Marroco e o autorizamos e o estimulamos a continuar seu esforço em Edimburgo, Glasgow, Birmingham e Liverpool. Em pouco tempo tínhamos 500 R.C. na Grã-Bretanha, e que foi uma força extraordinária de sustentação ao movimento.
            Os países da América Latina foram os próximos a ocupar nossa atenção e passamos a nos interessar por um americano que tinha interesses em Havana, Cuba. Era homem de elevados ideais e muita habilidade. Embora se esforçasse, durante algum tempo, voltou trazendo só fracasso e pessimismo quanto à aceitação de Rotary, por gente de qualquer raça que não fosse a anglo-saxão. Inobstante, dos sócios do R.C. de Tampa, na Flórida, Angel Cuesta e John Turner provaram, logo em seguida, que o meu emissário estava errado: organizaram um excelente R.C. em Havana e Cuesta, animado com o sucesso, foi à Espanha e, ali, organizou o R.C. Madrid, o primeiro do continente europeu.
            Angel, além de assumir pessoalmente todas as despesas dessa viagem ainda doou uma importância substancial, em dinheiro, para ajuda de serviços à comunidade em que nascera. Tendo cumprido a tarefa que, espontaneamente, se impôs, voltou aos Estados Unidos e jamais se jactou de seu feito. Talvez ele não percebesse o serviço que realizara: abrira a América Latina e a Europa para Rotary.
            Heriberto Coates de Montevidéu, tomou conhecimento do Rotary em visita aos Estados Unidos, e, ao voltar, fundou o R.C. de Montevidéu, de Buenos Aires e de outras cidades da América do Sul.
            Fred Teele, um engenheiro civil, deixou um emprego de 18 mil dólares anuais, após haver sido presidente do R.C. da Cidade do México e contentou-se com um de 5 mil, para tentar expandir Rotary na Europa, além da Espanha, França, Holanda, Dinamarca, e mais alguns países. O trabalho de Teele terminou pela instalação de um escritório do R.L, em Zurique, na Suiça.
            Dois rotarianos canadenses, Jim Davidson, de Calgary e J. L. Ralston, de Halifax, deram seu tempo, graciosamente, para criar Rotary Clubs na Austrália e Nova Zelândia. Naquele tempo, já Rotary tinha se tornado suficientemente forte para pagar despesas de organização de clubes. Alguns anos mais tarde Davidson empreendeu a organização de clubes no Sul da Europa, no Egito, na Índia, na China, no Sião, no Japão, fechando assim a volta ao mundo. Como subsídios para todo o seu trabalho só teve a reposição dos seus custos de manutenção durante os três anos necessários para a execução dessa tarefa gigantesca. Quando deixou a América, já sabia que não contava com muito tempo de vida. De fato, morreu pouco tempo após o seu regresso.
            Paralelamente aos edificantes exemplos acima, muitos outros rotarianos destacados vêm se doando, generosamente, à expansão do Rotary, o que é altamente gratificante e atesta a positiva influência da Instituição no mundo.
            Nos Estados Unidos fundaram-se milhares de R.C. sem a necessidade de "profissionais fundadores".     Resultaram tão somente do entusiasmo e do desejo das comunidades que passaram a sentir os benefícios oriundos da presença da Instituição.
            Os R.C. foram agrupados em distritos e rotarianos dos territórios distritais passaram a, anualmente, serem eleitos "governadores", os quais, voluntariamente, se propõem à tarefa de unificar o Rotary, pela adoção universal dos seus propósitos, normas e métodos de procedimento, além de expandir a sua rede. Esses "governadores" são e sempre serão fatores da unidade da Instituição no mundo e da sua extraordinária força construtiva.
            Pari-passu com a extensão, o desenvolvimento do ideal e as práticas de serviço rotário vêm crescendo. Os fatos precedem aos planos. Depois de resoluções de muitas necessidades sociais, foi adotada a palavra "serviço", na sua alta significação rotária. De um grupo pequeno, localizado em Chicago, Rotary transmudou-se numa organização internacional de inquestionável nobreza de propósitos.
            Centenas de pequenas cidades, em clima de absoluta pasmaceira desenvolvimentista, assumiram nova vitalidade com a criação de R.C.. Campanhas de limpeza surgiram, formaram-se grupos de escoteiros e conjuntos musicais de jovens; associações comerciais estagnadas, reviveram e outras foram fundadas. Acampamentos de jovens foram assumidos. Mais do que incentivadores, os rotarianos, na maioria das vezes, foram os "joão faz tudo". Os que não podiam contribuir com dinheiro faziam-no com trabalho. Quem soubesse bater um prego virava carpinteiro, negociantes transformaram-se em pedreiros, eletricistas, encanadores, conforme a oportunidade. As mulheres serviam gostosas refeições e, muitas vezes, colaboravam com seus maridos a ponto de serem chamadas , "rotarianas".
            Os que teimavam em descrer da expansão do Rotary pelo mundo, afirmando que seus propósitos só podiam interessar aos povos mais evoluídos, acabaram por aceitar que estavam errados. E que era minha a razão quando, em 1910, eu a previra e, em 1911, confirmara, nas respectivas convenções, em Chicago e Portland.
            Minha contribuição ao escopo internacional da instituição veio, como resultado da experiência adquirida nos meus cinco anos de peregrinação pelo mundo. Senão, como poderia eu sonhar com R.C. em Londres, Paris, Roma, Berlim e outras cidades?
            Há sabedoria na expressão: "Nada há de novo sob o sol". Talvez a maior característica do Rotary seja o sistema de classificações, que só permite como sócio de um R.C., um representante de cada negócio ou profissão. Pois bem, 2 séculos antes da concepção de Rotary, existia em Londres, uma sociedade com base na profissão dos seus sócios e Benjamin Franklin organizou o seu "Junto" em Filadélfia, num plano de classificações. Muitos anos antes, "A Societé de Philantropes", sediada em Strasburgo, na França, era quase idêntica ao Rotary nos seus propósitos idealísticos. Ocioso seria dizer que o conhecimento dessas organizações do passado só vieram aos fundadores do Rotary algum tempo depois de haverem eles concretizado a instituição.
É bastante freqüente esta pergunta: "Por quê o R.C. limita, a um profissional de cada atividade, a participação no seu quadro social?" A experiência provou que, assim, o companheirismo é mais efetivo, eliminam-se as suscetibilidades nos negócios e nas relações profissionais, estimula-se a solidariedade, fomenta-se a dignificação e o orgulho do exercício da própria profissão e alarga-se o espírito de compreensão das peculiaridades dos outros profissionais.
            Há muitas organizações cujos sócios são da mesma profissão. São elas de grande importância no mundo moderno. Proporcionam oportunidades de colaboração e solidariedade para o desenvolvimento dos seus negócios, quer quanto à melhoria técnica, quer quanto ao interesse comum. Uma associação de cirurgiões não admite profissionais de outras atividades, pois estas nada poderiam oferecer ao avanço ou dignificação da cirurgia.
            Se isso é verdade o é, também, o fato de alguém que tenha interesse social, ter evolução muito restrita se só mantiver contato com cirurgiões. Alargaria suas possibilidades se contatasse com outras profissões e interesses. Poderia obter tais contatos na sua igreja e no seu clube, mas estes não estão organizados para oferecê-los. Num Rotary Club ele encontrará oportunidades de absorver a influência de todas as vocações profissionais em exercício na sua e em outras comunidades.
            E não é demais enfatizar que o fato de ser rotariano impõe, ao homem, a obrigação de levar à sua associação profissional os ideais e princípios, que aceita e pratica como rotariano. Impõe-lhe mais: fazer com que os seus ideais e princípios sejam conhecidos e aceitos, em todos os seus relacionamentos profissionais.
Quem escreve é membro da Associação Americana de Advogados, da Associação de Advogados de Illinois, da Associação de Advogados de Chicago e, por dois anos,teve a honra de presidir a comissão de ética desta última. Pertenceu a outras comissões e foi o delegado da Associação de Chicago no Congresso Internacional de Direito, em Haia, e membro da Comissão Internacional da Associação Americana. Todas essas posições ofereceram-lhe oportunidades de levar o Ideal de Serviço de Rotary à profissão de Advogado. Há entre 8 e 9 mil advogados em Chicago e tem sido um trabalho imenso, da Associação de Advogados de Chicago, a elevação do índice de ética, na prática da profissão. Perto de 300 advogados tiveram seus nomes cancelados do quadro profissional por falta de ética.