CAPÍTULO XXXV
O Arquiteto Encontra o Construtor
Deus deve ter visto Rotary com bons olhos. Muitas vezes senti-me cansado
e desanimado. Foi, na verdade, providencial que, no terceiro ano após
a fundação, surgisse um companheiro que, mais que qualquer
outro, se dispusesse a trabalhar para transformar Rotary de sonho, em realidade.
Ninguém é capaz de imaginar o que teria acontecido ao Rotary
sem ele. Estou certo de que têm me passado muito crédito pelo
trabalho dele. Chesley Perry, tão logo se associou ao R.C. de Chicago,
entrou em entusiástica atividade para expandir a instituição
e eu, feliz, vi nele um precioso colaborador.
A adesão de Ches a "Rotary no Mundo" surgiu de maneira peculiar.
Um presidente entrante do R.C. de Chicago, que não gostava da idéia
de expandir o Rotary, nomeou Ches presidente da comissão de expansão,
certo de que anularia os planos, surgentes de levar Rotary a outras comunidades,
os quais ele considerava fantasiosos e arriscados.
Percebi, então, que era necessário assumir o desafio de perder
inteiramente o apoio do R.C. de Chicago, convertendo Ches ao trabalho
de expansão do movimento.
Chamei Ches ao telefone num domingo, quando ele tinha tempo para
uma conversa demorada. Ele me perguntou: "Você acha, que o R.C. de
Chicago, é apenas a semente da instituição que você
imaginou?" Não me lembro o que respondi mas pintei a situação
de cores escuras e descarreguei toda a minha artilharia de persuasão
em defesa da idéia de expansão. Ches prometeu quase nada
mas o que prometeu tranqüilizou-me. Quando rependurei o fone senti
que convencera um companheiro à causa. Logo depois, ele, eu e mais
alguns companheiros planejamos a associação dos clubes existentes.
Ches se propôs a planejar e organizar a primeira convenção
dos Rotary Clubs.
Alguns dos companheiros de Chicago manifestaram-se entusiasmados e colaboradores
decididos. Sentiam que seria possível expandir-nos dentro do país
mas ainda não concebiam o extravasarmo-nos pelo mundo. Os clubes
de outras cidades acreditavam mais na expansão mundial. Tinham visão
mais clara das possibilidades.
Chesley Perry tinha como que uma facilidade especial de captar e avaliar,
com precisão, os aspectos essenciais de quaisquer possibilidades
e estava apaixonado, não só emotiva como intelectualmente,
pela causa da expansão. Assim, passamos, nós dois, a trabalhar
por ela, lado a lado. Ele era um companheiro valoroso e destemido.
A primeira Convenção (delegados de 16 clubes) foi realizada
no Congresso Hotel, de Chicago em agosto de 1910, Ches foi eleito para
presidi-la. Os estatutos e o regimento interno foram elaborados e aprovados.
Os delegados discutiram, durante horas, e avaliaram as potencialidades
do Rotary. A assistência, nesta primeira Convenção,
esteve abaixo de 100 companheiros mas, vinte anos depois, quando da 21ª
Convenção, em Chicago, comemorativa dos 25 anos do Rotary,
a assistência subiu a mais de 11.000 pessoas, entre rotarianos e
convidados.
Ao encerramento da 1ª Convenção eu fui eleito presidente
da Associação fundada e Chesley Perry, secretário.
Na Convenção de Portland, em 1911, fui reeleito e, a meu
pedido, Chesley continuou como secretário. Na Convenção
de Duluth, em 1912, fui eleito Presidente Emérito do Rotary International.
Pela 3ª vez Ches foi eleito secretário e as suas reeleições
passaram a ser rotina até que ele se aposentasse em 1942.
Que Chesley Perry e eu houvéssemos afinado tão perfeitamente
no trabalho foi uma grande benção para a organização.
Rotary, por certo, influíra com a mesma força inspirativa
sobre nós. Toda pessoa que se entrega, de corpo e alma, a qualquer
empresa fará, por certo, alguma, coisa em favor dela.
Ches sempre me impelia para as frentes de trabalho e permanecia trabalhando
na secretaria, onde labutou duro, anos e anos, com pouquíssimos
períodos de férias. Seus dias não eram de somente
oito horas, já que permanecia no trabalho noite a dentro. Dedicado
a esse ponto, ele criou equipes excelentes, não só em Chicago,
como nos outros escritórios do mundo. Se eu posso ser chamado o
arquiteto, Ches foi, sem dúvida, o construtor do R.I.
O escritório central se desenvolveu em linhas democráticas.
Nunca consideramos os nossos funcionários como empregados. Eram
associados. Todos eram tratados pelos próprios nomes, por humildes
que fossem suas obrigações e, para eles, o Secretário
era "Ches" e eu "Paul".
Ninguém poderia dizer, por imaginoso que pudesse ser, que Ches e
eu éramos tão íntimos. Quando nos encontrávamos
no escritório a saudação era: "bom dia Ches" e a resposta,
"bom dia Paul". Raramente almoçávamos juntos. Muitas vezes
desejei ter Ches por algum tempo à tarde, para conversarmos sobre
os acontecimentos do dia, mas nunca havia oportunidade para tal. Ches tomava
um lanche leve, no próprio escritório, e continuava o seu
trabalho.
Ele tinha suas idiossincrasias e eu as minhas. Eu aceitava algumas coisas
como naturais e ele aceitava outras com naturalidade mas, mesmo assim,
iam-se desenvolvendo elos mais fortes que uma superficial camaradagem entre
nós, as quais redundaram numa grande afeição mútua
e muito respeitosa.
Alguma coisa parecida se desenvolvia, também, com os presidentes
internacionais que se sucediam, na organização. Eles não
tinham a recepção efusiva, que talvez esperassem mas encontravam
alguma coisa muito mais valiosa. Os novos diretores executavam suas tarefas
com o maior cuidado, para tê-las bem feitas. Os Presidentes eram
rotarianos experimentados, mas presidir ou servir como membro do C.D. do
R.I. era grande compromisso. Essa preocupação, no entanto,
desaparecia em pouco tempo. Sentado ao lado do Presidente, nas reuniões
do C.D., estava um homem, o Secretário Internacional, sempre pronto
à colaboração. Nunca obstruindo. Apenas um delicado
toque em certos assuntos ou um hábil sinal de guia nos princípios.
Assim, todas as dúvidas e temores desapareciam. Quando findava a
reunião, todos se sentiam tranqüilos com suas pastas de informações
nas mãos.
Quando, em 1942, se comentou que Ches ia aposentar-se das funções
de Secretário do R.I., criou-se um clima de preocupações
sobre o que poderia acontecer para a organização. Phil Lovejoy,
nascido em Portland, Maine, graduado na Universidade de Michigan e ex-presidente
do R.C. de Harntranck, Michigan, que vinha sendo primeiro assistente do
Secretário há já doze anos, fora escolha unânime,
para substituí-lo. Eleito, o trem não saiu dos trilhos, como
muita gente temia. Phil tinha plena competência técnica e
diretiva. Como assistente teve o auxilio, altamente qualificado de Lester
B. Struthers, que serviu na Organização por 20 anos.
Aposentado, Ches passou a trabalhar no seu R.C., de Chicago. A princípio
nas comissões e, em seguida, como diretor, vice-presidente e, afinal,
presidente, liderando um corpo social de 770 membros. Como os bons vinhos,
ele melhorava com a idade.
A secretaria geral é, hoje, não só altamente eficiente
mas, ainda, a fonte alimentadora da doutrina rotária. A equipe de
150 empregados entusiastas e eficientes, reúne-se, mensalmente,
na ampla sala do C.D., numa segunda feira, após o almoço,
sob a presidência sorridente de Phil Lovejoy.
Após o cântico relaxante, Phil põe em execução
imediata a ordem do dia, o balanço das atividades do mês vencido
e a programação para o mês vindouro, sempre intermeando
bom humor e entusiasmo. O resultado é que cada membro toma conhecimento
do ocorrido na Instituição e se conscientiza da importância
dos seus deveres, no conjunto das atividades do mundo rotário.
Para facilitar a expansão do Rotary e distribuir a noção
de serviço aos R.C. existentes, foi instalada uma sucursal da Secretaria
central em Londres e, pouco mais tarde, outra em Zurique, na Suiça;
e outra em Bombaim, na Índia. Todas com a supervisão, da
Secretaria Central. Essas sucursais têm rendido profícua assistência
aos R.C. da Inglaterra, da Europa e da Asia.
Em 1911 autorizamos o secretário Perry a editar e dirigir uma publicação
para o Rotary, a qual constituiu-se num dos mais positivos fatores de desenvolvimento
da instituição e de fomento à solidariedade entre
os rotarianos. Foi, também, muito bem recebida nas escolas e bibliotecas
e freqüentemente mencionada em outras publicações. Por
muitos anos "The Rotarian" vem sendo editada sob a capacitada direção
de Leland Case e, a sua edição espanhola, sob Manuel Hinojosa.
O progresso vertiginoso do movimento Rotário vem, como é
compreensível, exigindo consideráveis somas de dinheiro,
obtida por proporcionalmente pequenas contribuições anuais
dos sócios dos R.C., os quais, convictos da grandeza da Instituição,
procuram desenvolvê-la e expandi-la pelo mundo todo. A orientação
financeira da instituição tem, sempre sido conservadora e
severa, como se pode verificar até os nossos dias. Há apreciável
disponível em caixa, para suprir emergências, o que atesta
a lisura e o, elevado espírito de previdência dos seus dirigentes.
Embora os atuais orçamentos anuais possam parecer elevados,
não correspondem, nem de longe, à realidade, porque milhares
de rotarianos, de todo o mundo, estão colaborando com o movimente
sem outro interesse além da íntima satisfação,
que sentem, pelo fortalecimento do organismo capaz de oferecer melhorias
à humanidade, em harmonia e compreensão entre os homens.
Num dos primeiros tempos do Rotary, Ches veio ao meu escritório
para apresentar-me dois canadenses rotarianos, designados por R.I. para
fundar R. Cs. na Austrália e na Nova Zelândia. Eles haviam
manifestado a vontade de conhecer o "fundador do Rotary". Aceitei, honrado,
a homenagem mas salientei que a minha participação havia,
por certo, sido superada pela de Chesley Perry. Este, delicadamente, respondeu:
"Paul, eles desejam conhecê-lo pelo mesmo espírito que leva
os homens a desejar conhecer a nascente dos grandes rios".
Tenho meditado muito nesse cumprimento de Ches. Ele se constitui
numa honraria inefável, elaborada através de uma luminosa
imagem. Aceitei-o comovido mas será que um grande rio só
tem uma pequenina fonte na sua origem? Não! O grande rio é
a soma de milhares de contributos: sangas, riachos, veiasinhas d'água
e outros rios que vêm marulhando pelas encostas, a encontrarem-se
na corrente comum e formarem o grande rio. Assim aconteceu com o Rotary.
Cresceu com a adesão e cooperação dos milhares de
rotarianos de muitos países do mundo.
Sucederam-me, na presidência da Associação, um longo
rol de devotados rotarianos que lhe têm proporcionado força,
brilho e vitalidade. Vieram dos EUA, como do Canadá, do México,
da Inglaterra, da França, do Brasil e do Peru. Cada Presidente se
soma a outros homens, na qualidade de Diretores, Presidentes de Comissões,
Governadores de Distritos. Em cada ano um novo corpo administrativo vem
promovendo e contribuindo para a expansão, o crescimento e o aperfeiçoamento
da minha velha concepção de um companheirismo dos profissionais
do mundo, unidos pelo Ideal de servir.
Os R.C. têm oferecido inestimável contribuição
em idéias inspiração e realizações.
Na verdade, o rio grande, que é o Rotary, é a soma das contribuições
de muitos concorrentes menores.
O R.I. tem sido feliz na escolha dos seus presidentes. Seriam necessários
muitos grandes volumes para registrar a atuação deles no
desenvolvimento da Instituição, para louvar a dedicação,
a devoção e o espírito de sacrifício com que
todos têm-se desempenhado, na condução dos destinos
do Rotary. Presto-lhes aqui a minha homenagem, registrando-lhes os nomes
1912/13 - Glen C. Mead - Filadélfia - Pa.
1913/14 - Russel F. Greiner - Kansas City - Mo.
1914/15 - Frank L. Mulholand - Toledo - Ohio
1915/16 - Allen D. Albext - Minneapolis - Min.
1916/17 - Arch C. Klumph - Cleveland - Ohio
1917/18 - E. Leslie Pidgeon - Winnipeg - Canadá
1918/19 - John Poole - Washington - D.C.
1919/20 - Albert S. Adams - Atlanta - Georgia
1920/21 - Estes Snédecor - Portland - Oregan
1921/22 - Crawford C. McCullough - F. William - Canadá
1922/23 - Raymond M. Haveres - Kansas City - Mo.
1923/24 - Guy Gundaker - Filadélfia - Perl.
1924/25 - Everett W. Hill - Oklahoma City - Okla.
1925/26 - Donald A. Adams - New Haven - Conn.
1926/27 - Harry H. Rogers - San Antonio - Texas
1927/28 - Arthur H. Sapp - Huntington - Indiana
1928/29 - T. B. Sutton - Tampico - México
1929/30 - M. Eugene Newsome - Durham - N. Caroline
1930/31 - Almon E. Roth - Palo Alto - Califórnia
1931/32 - Sydney W. Pascall - Londres - Inglaterra
1932/33 - Clinton P. Arderson - Albuquerque - N. York
1933/34 - John Nelson - Montreal - Canadá
1934/35 - Robert E. L. Hill - Columbia - Mo.
1935/36 - Ed. R. Johnson - Roanoke - Va.
1936/37 - Will R. Mannier Jr. - Nashville - Tenn.
1937/38 - Maurice Duperrey - Paris - França
1938/39 - Geo. C. Hager - Chicago - Ill.
1939/40 - Walter Head - Montclair - N. Gersey
1940/41 - Armando Arruda Pereira - São Paulo - Brasil
1941/42 - Tom J. Da Vis - Butte - Montares
1942/43 - Fernando Carbajal - Lima - Peru
1943/45 - Charles Wheeller - San Francisco - Cal.
1944/45 - Richard H. Wells - Pocatello - Idaho
1945/46 - T. A. Warren - Wolver Hampton - Inglaterra
Arthur Frederic Sheldom foi o criador do slogan "Mais se beneficia
quem melhor serve", adotado como indicador de que o esforço por
oferecer o melhor serviço reverte em maior satisfação
a quem o dá. Os rotarianos de Minneapolis deram-nos outro slogan:
"Dar de si antes de pensar em si".
Os rotarianos de Seatle deram-nos o quadro de princípios
e alguns, do R.C. de Sioux City, contribuíram com o código
de ética. Muitos outros deram contribuições que resultaram
na correta orientação da condução do Rotary.
Em 1915 Guy Gundaker, de Filadélfia, preparou um livreto
"Conhecimentos Específicos de Rotary" (Talking Knowledge of Rotary)
que retrata a Instituição no estágio da época.
Foi uma valiosa contribuição à causa.
O R.C. de Birmingham, Alabama, ofereceu esclarecimentos para interpretação
de Rotary pelo público, como também o fizeram os R.C. da
Inglaterra e Irlanda.
Mesmo antes da fundação do segundo R.C., convenci
o R.C. de Chicago a contribuir com a comunidade, promovendo, com auxilio
das autoridades e do povo, a construção de instalações
sanitárias públicas na cidade. É possível que
outro serviço mais atrativo pudesse ter sido escolhido para nossa
primeira contribuição mas teria sido difícil haver
achado outra que despertasse maior interesse. Duas forças formidáveis
levantaram-se contra nós. Uma foi a associação dos
cervejeiros de Chicago, que afirmava que os seis mil bares da cidade ofereciam
instalações suficientes para todos os habitantes homens.
A outra foi a Associação de lojas de Departamentos na State
Street, que afirmava serem, as acomodações das lojas livres,
suficientes para todas as mulheres. Os proponentes da medida, no entretanto,
contestaram que os homens não precisariam comprar cerveja nem as
mulheres adquirir mercadorias para servirem-se de sanitários. Foram
construídos os mitórios públicos.