CAPÍTULO XXXVIII
“Comely Bank”
Eu passava, num dia de inverno, pela estrada de Longwood, num subúrbio
de Chicago. A estrada ladeia uma colina, que é denominada "A Crista",
e se estende por muitas milhas na direção sudoeste, alterando
a topografia de Chicago, que é plana. As casas do lado oeste da
estrada são construídas na crista da colina.
Naquele dia a colina estava coberta de gelo e muitos jovens, sem
se importar com os direitos de propriedade, se divertiam ali. Nem os donos,
ao que parece, se importavam com isso.
O quadro lembrava tanto alguns aspectos da Nova Inglaterra que, de súbito,
senti vontade de ter, ali, uma casa minha, no alto da colina, em Longwood.
Isso aconteceu mais cedo que eu esperava.
Passeando no "Praerie Club" de Chicago, encontrei uma moça
escocesa muito bonita, que se preocupou com um rasgão em meu paletó
e se ofereceu para cerzi-lo. O gesto a complicou, pois, logo em seguida,
eu a persuadi a tornar-se minha esposa. Chamava-se Jean Thomson.
Desposei a bonita Jean em 1910 e dois anos depois adquiri uma casa na colina.
Batizamo-la "Comely Bank", adotando a denominação da rua
onde ela vivera a sua infância e juventude, em Edimburgo. Durante
os maravilhosos trinta anos que mantivemos a propriedade, a meninada teve
inteira liberdade de brincar nos seus gramados.
Eu não tinha coragem de impedi-los. Eram todos uns queridos peraltas.
Há poucos anos, muitos deles estiveram lutando pela América
em solo estrangeiro. No mar, na terra, nos ares! Deus abençoe os
traquinas da nossa querida Pátria!
A grande cidade, na sua marcha de crescimento, foi, aos poucos, se aproximando
de nós, quase a ponto de podermos sentir-lhe respirar. Ainda estávamos
no subúrbio e em 10 minutos, de automóvel, podíamos
alcançar a zona rural com plantações de trigo, de
milho, pastagens e capões de mato, onde tínhamos a gostosa
sensação de repouso e isolamento.
Do outro lado da estrada, diagonalmente à nossa casa, havia, logo
que casamos, um refúgio ideal para os passarinhos, que nos deliciavam
com seus cantos e com a irrequietude alegre dos seus vôos.
Era uma quadra toda, coberta com velhas macieiras silvestres, densamente
próximas e cheias de espinhos, que ofereciam aos passarinhos ampla
proteção contra os gatos e cães. Ali os tordos faziam
seus ninhos e criavam os seus filhotes com segurança. Milhares deles
emigravam. Faziam, ali, permanência temporária, durante a
primavera. O ar ficava impregnado dos seus cantos.
Nunca atinei com as razões pelas quais as avezinhas rejeitavam aquele
abrigo celestial, para moradia permanente. Talvez, como as criaturas humanas
de temperamento movediço, considerassem aquele bosque como um local
de reunião para tratar de interesses específicos e, após
retiravam-se o mais depressa possível. Tal qual as pessoas em relação
à estação central da ferrovia. Como nenhuma pessoa
sensata pensaria em manter-se com a família na estação
central, o tordo não se permitia morar ao lado da estrada de Longwood.
Pais previdentes, reuniam-se, reproduziam- se, escolhiam seus pares e partiam
para locais de própria escolha, longe da comunidade ruidosa.
Uma manhã, após a partida dos passarinhos, tratores derrubaram
todas as árvores, arrancando-as pelas raízes. Ao fim do dia,
não restava nenhuma delas. Quando os tordos retornaram e viram a
depredação, ficaram atônitos. O tumulto das suas vozes
e do ruído das suas asas era ensurdecedor. Qualquer pessoa podia
adivinhar que em linguagem de tordos eles gritavam: "Ladrões! Gente
ladra! Além de destruírem nossas casas ainda levaram-nas!
Nunca se viu tamanha crueldade!"
Dentro de noventa dias ali estava um prédio de apartamentos para
500 seres humanos, em lugar do que fora santuário de passarinhos.
Linda estrutura e excelente paisagismo mas a nossa sensação
de privacidade, como habitantes do interior, se fora. Tínhamos de
conformar-nos com isso! Achamos alguma compensação. Na idéia
de que 500 pessoas, como nós, haviam escapado do barulho e da agitação
da cidade e que as luzes que se escoavam pelas janelas do edifício,
eram para nós, uma mensagem de amizade.
Minha esposa e eu procuramos fazer da nossa casa o melhor lugar possível,
para as nossas vidas. Recebemos ali milhares de rotarianos de todas as
partes do mundo. Às vezes, tínhamos à nossa mesa,
hóspedes de oito países diferentes. Homenageando nossos hóspedes,
plantamos inúmeras árvores no local que chamamos jardim da
amizade. Muitos dos homenageados já se foram deste mundo mas as
árvores lá estão, como testemunho da sua amizade.
Como não tivemos filhos, Jean e eu adotamos, como tais, o Rotary
International. A par de havermos tido, transbordante de felicidade, a nossa
taça da vida, em Comely Bank, tivemos, também, as nossas
amarguras. Por exemplo: os administradores da cidade estenderam a rede
de iluminação pública à estrada de Longwood.
Privaram-nos, pois, de gozar a visão serena das cortinas de Deus
enfeitadas de estrelas. Nunca mais pudemos admirar a luminosidade merencória
da lua. Jamais os moradores da nossa comunidade tiveram de andar incertos
na escuridão da noite, de volta ao calor gostoso dos seus lares.
Os administradores públicos cuidam desses assuntos. A noite fora
banida para sempre.
Em muitas ocasiões os C.D. do R.I. convidaram-nos para visitar os
R.C. de outros países. Regra geral, aceitamos tais convites e viajamos,
como embaixadores da boa vontade. Com a cooperação de rotarianos
e de governos, plantamos árvores da amizade nos jardins de muitos
países dos cinco continentes do mundo e nas grandes ilhas dos mares.
As nossas árvores permanecem como símbolo de compreensão
e de boa vontade internacional. Governos nacionais e municipais participaram
das cerimônias dessas plantações e, em outras ocasiões,
da inauguração de placas de bronze, afixadas em obeliscos,
com inscrições tempestivas. Os plantios de árvores
eram, em verdade, gestos de boa vontade, símbolos de mútua
compreensão, facilmente inteligível aos cidadãos de
vários países.
Nunca criticamos hábitos de qualquer país. Acreditamos que
cada povo tem o seu próprio conceito de correção de
vida, que pode diferenciar-se dos demais.
Turistas, que teimam em julgar outros países pelos padrões
dos seus, é claro, apontam-lhes falhas. Estarão despreparados
para entender que comportamentos diferentes podem, muita vez, significar
maior avanço social.
O complexo de superioridade é um poderoso fator de perturbação
da paz e, lamentavelmente, não é raro no concerto das Nações.
A fórmula que usamos, durante as nossas viagens, é dar a
maior atenção possível aos valores sustentados pelo
povo e, jamais, pô-los em paralelo com os de outros povos, a menos
que sejamos interrogados a respeito. Em suma, procuramos sempre o que há
de bom e belo nos costumes dos povos que visitávamos. Essa política
de relacionamento tem-nos sido muito compensatório. Ninguém,
que tenha tido o privilégio de conviver com gente de tão
variados países, como nós, pode chegar a desprezar qualquer
nação. Para mim, o desprezo, é uma força de
dissociação, desprezível na paz e, até, na
guerra. O cristianismo mostra o caminho mas os homens afastam-se dele,
quando se permitem ser dominados pela má emoção e
pelo ódio.
Depois de viagens longas, voltamos saudosos para casa, sentindo
que, cada vez mais, amamos nossos pais, que alcançou tanto progresso
e tem, ainda, muito a avançar. Esse amor, no entanto, encontra justificativa
no que nos foi possível sentir e verificar, através dos variados
contatos que fizéramos com outros povos. Encontramos nessas
andanças, as razões pelas quais podemos admirar a nossa Pátria:
pelos seus alevantados ideais, pela sua paixão pela educação,
pela determinação em favor da manutenção da
liberdade.
Essas características são suficientes para justificar a minha
eterna admiração e a inabalável lealdade que dedico
ao povo americano e à sua, nossa, Pátria.
A minha convicção de que os EUA possuem tais virtudes em
grau não superáveis por outras nações, dão-me
coragem para admitir erros que temos cometido, que estamos cometendo e
que cometeremos no futuro.
Os ideais do meu país e a sua paixão pela educação
dão-me certeza de que não estacionaremos em a nossa evolução
mas haveremos de crescer, sempre, mais e mais. É inabalável
a fé que tenho nos destinos dos EUA.
Meu patriotismo não me impede de admitir que vivemos num
mundo predatório e que, também, praticamos predações.
O conceito de sobrevivência dos mais aptos é uma doutrina
brutal.É a permanência da lei da selva. A civilização
clama por métodos mais humanos e inteligentes, para resolução
das diferenças entre os povos.
Por certo os encontraremos. Mas não será mantendo
posições hipócritas e dando largas às nossas
próprias tendências. Teremos que exercitar e temperar a nossa
racionalidade, em todos os relacionamentos humanos, na forja do desejo
sincero de preservar o mais conveniente e eqüitativo aos interesses
de todos.
O desprendimento e o idealismo do meu país tem sido manifestado
ao mundo, durante os últimos cinqüenta anos e, embora estejamos
dispostos a remover todos os obstáculos, estamos cientes das dificuldades
que nos aguardam.
Nós, os americanos, somos inclinados a idolatrar os heróis.
Deus queira que o saibamos escolher. Quem ignorará que nós
adoramos a eficiência? O que faremos quando todas as aspirações
forem alcançadas? Alimentar novas aspirações e persegui-las?
Atingir alta produtividade talvez fosse, hoje, a resposta.
Os homens necessitam trabalhar e isso significa produzir. É mais
fácil produzir complicações do que desfazê-las.
A produtividade, é claro, não deve ser relaxada. Ela oferece
possibilidades sem fim. O automóvel nivelou as montanhas e o aeroplano
ligou os oceanos, facilidades que são para tornar possível
o entendimento entre as novas gerações do mundo. As conseqüências
inevitáveis da melhor compreensão são o crescimento
da boa vontade, queiram ou não, as aparências.
Em favor da eficiência (alta produtividade) pode ser dito que nós
e nossos aliados ganhamos a última guerra porque éramos mais
produtivos. Tínhamos mais escolas, mais universidades, mais hospitais.
Tudo isso é fruto da eficiência, da produtividade. Se queremos
alimentar todas as crianças das nações devastadas
pela guerra, como o faríamos sem a alta produtividade?
Sinto que não demorará muito tempo a solução
das dificuldades da América. Se eu vejo necessidades, estou
certo que outros homens, mais fortes e menos egoístas que eu, também
as vêm e elas serão superadas pelo espírito indômito
deste povo.
Do que necessitamos é uma filosofia de vida sensível, integral,
altaneira. A subserviência à máquina não nos
levará a nada. O mais alto das minhas aspirações para
os meus compatriotas é que eles sejam vistos, pelo mundo, como um
povo amante da educação e da vida em família.
Os pregadores, os poetas e os filósofos vêm promovendo essas
qualidades para a nossa gente e nós as aceitamos, em teoria, mas
não as praticamos. Até os homens que dirigem as empresas
mais poderosas aceitam as excelências dessa doutrina. No entretanto
poucos a põem em prática.
E o que tem isto a ver com o meu vale querido na Nova Inglaterra? Apenas
isto: Rotary nasceu do espírito de tolerância, da boa vontade
e de disposição de servir, que caracterizaram o povo da Nova
Inglaterra dos meus tempos de menino. Eu, apenas, fui um intérprete.
A fé que esteve em mim, perdurará nos homens e multiplicar-se-á!