CAPITULO XXXIX
O Meu Vale... Naquele Tempo
Durante os últimos anos tenho visitado o meu vale, sempre que me é possível, e minha querida namorada tem, estado comigo. Fi-la minha companheira no sentir as maravilhosas recordações da minha infância. Essas visitas se fazem, geralmente, no outono, quando a pletora do turismo de verão vai-se extinguindo e a coloração outonal das árvores é a mais intensa.
Outubro em Nova Inglaterra!
E eu ausente pra ver
O lindo brilho dourado,
Flama no "Maple" acender!
Vermont em roupas de gala
Do Maine, flores, canções,
Aleluias em grupo, em alas
D’oiro, vermelhos borrões
October in New England
And I'm not there to see
The glamour of the goldenrod,
The flame of the maple tree!
Vermont, in robes of splendor
Sings with the woods of Maine,
Alternate halleluiahs
Of gold and crimson stain.
(Odell Shepard)
Muitas transformações ali ocorreram, o que, é óbvio,
era de esperar-se. Embora a população da pequena cidade permaneça
quase estacionária, no cemitério pequenino da colina ela
aumentou além do que se poderia imaginar. Lá jaz a maior
parte das pessoas da minha geração e seus lugares, na comunidade,
foram preenchidos por seus filhos e filhos dos seus filhos como, também,
por outra gente atraída ao vale pela sua beleza, pelo seu sossego
e pela sua paz.
Novas indústrias ali se instalaram. Ninguém do meu tempo
pensaria nelas. Por exemplo: a procura de árvores de natal nas cidades
grandes ninguém poderia prever. Na minha infância não
se celebrava o Natal daquele jeito. Pendurávamos as nossas meias
perto da lareira, se a tivéssemos; se não a tivéssemos,
as meias iam para o suporte do chaminé na traseira do forno, onde
o místico, vigoroso e bom “Santa Claus” as acharia, com certeza.
Era mais fácil entender como "Santa Claus", com seu enorme saco
de presentes, poderia descer pela chaminé de uma lareira, do que
pelo tubo da chaminé de um forno, mas as duas vias davam consistência
de efetividade à visita de “Santa Claus”: o gosto do pudim, que
era servido no dia seguinte, e os bons presentes que ele deixava dentro
das meias.
É na véspera de Natal:
Na casa, tudo parado;
Dormem todos por igual
Té o ratinho . . . tal e qual.
“Santa Claus” é esperado
Entrar pela chaminé
E na meia, num só pé,
Pendurado sob fé,
Deixar presente sonhado
It was the Night before Christmas
When all through the house
Not a creature was stirring,
Not even a mouse,
The stockings were hung
By the chimney withcar,
In hopes that St. Nicholas
Soon would be there
(Clement C. Moore)
Naturalmente ninguém, jamais, viu “Santa Claus” com o saco de presentes
mas nenhuma árvore de natal seria capaz de excitar tanto a nossa
imaginação ou trazer maior festa aos nossos corações,
como a imagem daquele “Santa Claus”, de cara de maçã e barrigudo,
enchendo as nossas meias, enquanto o seu trenó esperava estacionado
no telhado, impaciente para seguir adiante e alegrar os corações
dos meninos de todo o vale e por todo o mundo.
Se conhecêssemos a ilusão da árvore de Natal, teríamos
afirmado que os meninos da cidade poderiam ter todas as árvores
de natal que quisessem, se seus pais as quisessem comprar.
Nos primeiros tempos da indústria, a derrubada das árvores
foi indiscriminada para manter o consumo. Lindas árvores que poderiam,
até hoje, estar alegrando o coração dos homens, foram
sacrificadas para um propósito tão efêmero. Se dependesse
de mim esse assunto, eu diria: Volta tudo como era nos meus tempos:
meias penduradas ao lado dos chaminés e as árvores ficarão,
enfeitando as encostas das montanhas, como foi à vontade do Criador.
No entanto, a visão larga dos empresários percebeu que a
indústria de extração de árvores de Natal podia
ter permanência se associada com o replantio, e assim a seleção
das árvores é feita com o devido critério. De
certo modo, o distanciamento entre as árvores as beneficia.
Estas árvores não exigem solo rico. Preferem afundar suas
raízes na terra dura, entre as rochas, e aí ampararem-se,
para resistir às tempestades, no inverno. É admirável
como tanta beleza pode surgir em tal solo. O abeto vermelho medra nas montanhas
da Nova Inglaterra sem auxílio de adubação.
Outra fonte de rendimento para os habitantes do meu vale, recentemente
em atividade, é a colheita, embalagem e remessa de samambaias, como
ornamento dos ambientes urbanos. Nós considerávamos os fetos,
bonitos e, às vezes, os colhíamos para misturar às
flores, com propósitos decorativos. Como a samambaia é uma
espécie de feto gigante, não haveria justificativa para a
nossa discriminação.
As samambaias crescem em grande abundância nas baixadas do vale e
encontram mercado pronto. Esta indústria oferece oportunidade, aos
estudantes, para ganhar algum dinheiro durante as férias de verão.
As floristas, nas cidades, as consomem em grandes quantidades na embalagem
de flores para embarque. Nada é melhor que a samambaia para, conservar
as flores frescas e brilhantes. São, também, usadas para
conservar hortaliças em lojas e residências, durante
a estação fria. Apertadas em pequenas caixas, conservam as
verduras verdes até o uso.
Não há que temer a sua extração. A natureza
se encarrega de repô-las. A cada ano as samambaias nascem e atingem
a maturação para colheita. Se mãos humanas não
as colherem, o inverno as extingue, já que não respeita os
direitos de propriedade ou de sobrevivência das samambaias existentes.
O meu vale participa, com outros do norte da Nova Inglaterra, dos rendimentos
proporcionados pelos esportes de inverno. Nessa estação,
os trens e as estradas nos trazem esportistas de sky e outros. As condições
do tempo, no entanto, mutáveis que são, muitas vezes nos
trazem desapontamentos e frustrações.
O conselho de Horace Greeley, "Vá para o oeste meu jovem" correu
rápido na Nova Inglaterra, quando eu era jovem. Todas as comunidades
deram contribuições ao desenvolvimento do oeste. Algumas
delas, muito valiosas. Um pequeno povoado de Cape Cod deu a Chicago os
fundadores de três grandes instituições: a Swift Packing
Company, a Tobey Manufacturing Company e o First National Bank.
Contavam-se, por todos os lados, histórias de grandes sucessos no
oeste. A propaganda era tão ruidosa que a maioria dos jovens abandonava,
os seus lares. Mas havia exceções. Um jovem camponês,
Redfied Proctor, desenvolveu uma indústria de extração
e beneficiamento de mármore em nosso vale e fê-la a mais importante
do mundo, não excetuando nem mesmo as de Carrara onde as pedreiras
eram mais acessíveis e o mármore já tinha fama no
mundo todo, pela qualidade e pela perfeição de mão
de obra. Na arte de esculpir em mármore para a estatuária
só italianos eram exímios e não lhes faltava o mármore
branco, idealmente requerido para tal.
O desenvolvimento da produção de mármore do meu vale
é uma longa história mas, dentro em pouco, as minas de Vermont
terão fama como fornecedoras de mármore para estatuária.
Artistas de Carrara foram atraídos para Vermont pela certeza do
pleno sucesso e por melhores salários. Redfield Proctor foi governador
do Estado de Vermont, senador e, depois, membro do Gabinete do Presidente
Benjamin Harrison. Em outras palavras, ele mudou-se para Washington.
Redfield Proctor foi um ardente protetor da indústria em Vermont,
como foram outros vermontenses. Não posso
afirmar mas suponho que tenha estendido a proteção às
suas próprias indústrias.
O sucesso da mineração e da manipulação do
mármore em Vermont aconteceu, não somente em virtude dos
incentivos oficiais mas, também, pela adoção de técnicas
e aparelhos que melhoraram e apressaram os resultados das técnicas
italianas. Brocas de diamante, furadeiras, serras de material resistente,
abreviaram o tempo de cada operação e permitiram substituir
o uso da dinamite em várias operações. Guindastes
foram aplicados para erguer grandes blocos de mármore do fundo das
minas, num esfregar de olhos e grupos de serras mecânicas trabalhavam
dia e noite, reduzindo os blocos em peças de tamanhos convenientes
para satisfação dos pedidos existentes. Um grande bloco era
consumido pela serra em 24 horas. Serras de aço, com contínua
irrigação de água e areia.
O mármore não é o único produto das minas de
Vermont. Enquanto o mármore estava sendo explorado na base da montanha,
outra indústria começava a operar ao norte do Estado. Eram
as jazidas de granito de Barre, que hoje gozam a fama de produzir o melhor
granito do país. A natureza foi pródiga no dotar Vermont
com as minas de granito e os operosos e ambiciosos vermontenses aproveitaram,
ao máximo, a dádiva que receberam. O granito; em Barre, apresenta-se
em camadas horizontais superpostas e não em bolsões, como
na Escócia. É possível, obter grandes monoblocos,
de doze metros de comprimento, de granito em Bare; sem um simples defeito
ou mancha, particularidade única, até hoje.
A excelência do granito de Vermont é, facilmente, constatada
por quem quer que se interesse observar as obras existentes nos cemitérios.
A fama dos produtos de granito e de mármore nas "Green Mountains"
não sofre rivalidade com a produção das pranchas de
Vermont, embora estas estejam entre as melhores do mundo. A indústria
de pranchas (placas) de pedra estava, na minha infância, em mão
dos Gauleses. Estes, além do controle dessa indústria, exerciam
influência em outras atividades. Por muitos anos mantiveram a liderança
das formas de cultura, que trouxeram da sua origem. Neles não havia
um elemento mais fraco que o outro
Todos os americanos, que amam sua pátria têm interesse no
desenvolvimento cultural e educacional e na generalização
da vida saudável. É, para nós, prazer notar a melhoria
moral, cultural e espiritual.
É gratificante que o pessoal que imigra das cidades para
o meu vale e para outros pontos da Nova Inglaterra é, regra geral,
bem recebida pelos naturais da região. Para mim não há
maior garantia de bom caráter do que o manifesto amor a Deus.
Embora a maioria dos novos habitantes da Nova Inglaterra seja composta
de aposentados que procuram repouso, há entre eles, muitos escritores
e educadores não aposentados. São atraídos pela beleza
das montanhas, pelo desejo de se despirem das complexidades supérfluas
da vida citadina e para poderem aplicar-se mais efetivamente às
suas atividades. Vermont atraiu muita gente nessas condições.
As belezas do campo e a vida atrativa sempre funcionaram como um convite
para os homens de letras. Os soberbos lagos ingleses atraíram, entre
outros eminentes literatos, Wordsworth, Coleridge, Ruskin, Southey, etc.
Tennyson encontrou inspiração nos maravilhosos panoramas
terrestres e marítimos da ilha de Whight. Há muitos mais:
Shakespeare, Burns, Scott, Kingsley e sem número de outros.
Entre os que se fixaram em Vermont nestes últimos anos, cita-se,
Rudyard Kipling, Will Durant, Dorothy Canfield, Fisher; Sinclair Lewis,
Dorothy Thompson, Robert Frost, Frances Frost, Sara Cleghorn, Frederic
Van de Water, Zephine Humphrey, Walter Hard e outros mais, que seria cansativo
mencionar. De fato Vermont tornou-se a meca dos escritores, artistas e
publicistas. A Nova Inglaterra vai passando por uma verdadeira renascença
literária.
Desde tempos imemoriais os homens de letras buscam inspiração
nas coisas belas da Natureza. Na Nova Inglaterra temos sobra de belezas
naturais para excitar a sensibilidade dos literatos. Deus queira, pois,
que homens e mulheres de gênio e capacidade de captar tudo o que
há, de elevação espiritual, naquelas montanhas lindas,
naquelas fragrâncias, naquela tranqüilidade, na harmonia e no
bucolismo daqueles vales maravilhosos, se inspirem para produzir obras
de grande beleza e elevação.
Todos os gostos estão ali representados, quer por aqueles que constroem
suas casas de verão, quer pelos que se fixam definitivamente. Alguns
se colocam nos lugares altos, outros nos baixos; alguns na sombra, outros
nos lugares ensolarados. Há os que se colocam no meio do mato, como
os animais feridos que se escondem dos homens e dos cães para curar
suas feridas e descansar. Estes não são, como possa parecer,
anti-sociais, mas, apenas, necessitam sossego e repouso.
Os habitantes da Nova Inglaterra são disciplinados e obedientes
à lei, mormente os ruralistas. Violência e crime são,
ali, quase inexistentes. Como o ambiente onde vivem, rodeado de serras,
os montanheses são rudes mas confiáveis. Durante a minha
infância eu só soube de um assassinato em Vermont. Foi o de
John P. Fair, assassinado em Rutland, por um homem que, poucos meses após,
foi executado em Windsor. Foi assunto para grande agitação
em todo o Estado.
Suborno e corrupção política; também, eram,
acontecimentos praticamente inexistentes. Quando perguntaram a George D.
Aiken, hoje senador pelo Estado de Vermont, quanto lhe custara à
campanha eleitoral para governador, ele respondeu: "Não estou
bem certo! Calculo que foi aí pela casa dos trinta centavos de dólar!"
A resposta de Calvin Coolidge à pergunta de um repórter sobre
se ele seria candidato à reeleição para a Presidência
é, sempre, lembrada: "Não cabe a mim a escolha!" Ela caracteriza
bem o tipo conservador e lacônico da gente da Nova Inglaterra.
O que notabilizou Calvin Coolidge na Presidência foi a sua honestidade
e a indiferença à opinião pública sobre sua
conduta. Desde que tivesse razão para sentir-se digno, mantinha
o auto-respeito. Olhava todos os assuntos com absoluta independência.
Acredito que compreendi Mr. Coolidge muito bem. Fui seu contemporâneo
na "Black River Academy", que ele cursava um ano à frente de mim
e, depois, fomos vizinhos. Era lacônico e gostava de expressar-se
por epigramas mas, sempre dentro da verdade. Fazia-se grande esforço,
naquele tempo, para evitar os circunlóquios. O povo todo queria
as coisas práticas, concretas, simples, corretas.
Quando Vermont sofreu a maior enchente da sua história, houve manifestações
de solidariedade de todos os lados. O congresso autorizou um auxílio
em dinheiro para os "flagelados".O Governo Estadual o rejeitou, afirmando
que Vermont podia cuidar dos próprios problemas. .
E, na verdade, o fez com a. emissão de oito milhões de dólares
em bônus, que foram prontamente absorvidos e, logo após, totalmente
resgatados.
O Estado mantém uma esplêndida Universidade que se destaca,
urbanisticamente, em Burlington. Foi estruturada por Ira Allen, há
mais de 150 anos. É paradigma da cultura e do desenvolvimento
do Estado.
Um dos mais marcantes traços de cultura em Vermont é
a recente criação da orquestra sinfônica, que honraria
qualquer cidade do país. Seus figurantes foram pinçados nas
pequenas comunidades do Estado. Em Burlington realiza-se um festival anual
de música.
Outro passo no desenvolvimento é a realização do Congresso
de membros das bandas e orquestras das escolas secundárias de música.
Só são elegíveis os alunos laureados nas suas escolas.
Esses alunos recebem cursos intensivos de educação musical
para capacitá-los a progredir ,o mais possível, na profissão.
Para não ser superado pela "State University" o "Middlebury
College” fundou uma escola especifica para professores e escritores, no
alto, bem próxima ao monte "Bread Loaf".
Ouvi dizer que uma das mais agradáveis características para
uma viagem através da Nova Inglaterra é hospedar-se, o turista,
nas grandes casas antigas, gozando a conversa e a troca de pontos de vista
com os homens da região e a extrema capacidade das mulheres, como
dirigentes da casa.
Todos sabemos o quanto é frustrante uma viagem de férias
desagradável. As agências de turismo e as associações
comerciais, depois de cuidadoso estudo, fazem a seleção das
viagens a serem oferecidas. Efetivamente, são
elas favoráveis, não, porém, no que diz respeito à
natureza da hospedagem e ao calor do acolhimento. Férias só
podem agradar se, além do descanso satisfatório, a gente
se sentir bem. As donas de casa da Nova Inglaterra são afamadas,
como ordeiras, asseadas e boas cozinheiras.
A importância que tem o cultivo da opinião e a amizade da
gente de uma comunidade é, só, plenamente sentida se houver
convivência com ela.
Se um recém-chegado a uma comunidade da Nova Inglaterra interessar-se
pelo bem da comunidade, quer através da religião, quer das
atividades escolares, quer por outros meios, integrar-se-á rapidamente
nela. Deve, no entanto, deixar altos preconceitos na sua origem. Aqui não
se dará bem com eles.
No meu vale há lugar para acolher, hoje, os milhares de criaturas
que se acotovelam nas grandes cidades dos EUA. Toda a Nova Inglaterra pode
repetir as amáveis palavras do Grande Mestre: "Vinde a mim todos
vós, que estais cansados ou humilhados, eu vos recuperarei e consolarei".